Adivinhação e Cura


Nas suas sessões, abertamente espíritas, os sete “médiuns” (Não há mediunidade ou comunicação dos “espíritos”) intercedem ao mesmo tempo pelo doente. A sincronização e comunhão dos pensamentos seria, segundo o teórico da escola, a grande chave da força “curadora”. Á distância, também segundo o Sr. Simpson , não apresenta nenhum obstáculo. Assim foram tratadas desde Londres pessoas da África do Sul, Austrália, China ou Malásia. Semanalmente são tratados com o método da “Guild” até uns dois mil doentes.

O curioso, o realmente admirável e não menos repreensível é que até a “Associação Médicada Inglaterra” admitiu certa dúvida ou simpatia pela “Guild”. Inclusive alguns médicos chegaram a submeter seus próprios parentes a esse tratamento.

Entre as doenças “curadas”, citam-se particularmente casos de tuberculose, paralisia infantil, diversas perturbações cardíacas, três casos de cegueira, estacionamento de câncer (por quanto tempo?) e até outro caso de estacionamento (não de cura!) de lepra branca.

Mas frisa o Sr. Simpson, “é necessário que o paciente esteja apto para corresponder no momento exato e fixado pelo grupo para concentração de suas forças sobre o caso. O grupo age como um posto transmissor, e o doente como um aparelho receptor, ligados por um feixe de ondas restauradoras” (?!).

Caberia perguntar se a força “curadora” não depende exclusivamente da “concentração das forças do doente no seu caso” e da confiança supersticiosa que deposita na suposta ação à distância dos “médiuns”.

Mas também não seria possível que a concentração e comunhão do pensamento do grupo de curandeiros fosse um mais apto objeto da Adivinhação inconsciente do doente, e que esta Adivinhação de um forte desejo de “cura” possa desencadear maiores forças “curativas” do próprio paciente (?) Eis a Quarta Hipótese.

Esta demonstrado em Parapsicologia o chamado “Efeito de Reforço” nos “agentes”. São muitíssimos os casos e experiências: “Multiplicando-se os ‘agentes’, o fenômeno (da chamada Sugestão Telepática) pode surgir com maior facilidade, mesmo quando as demais condições são péssimas”.

O chamado “Efeito de Reforço” entre seitas pentecostais: exaltação e número de “agentes”

Importância do “agente”.

Numa série de experiências realizadas pelo Dr. Gilber Murray, distinto humanista da Universidade de Oxford e presidente da “Sociedade de Pesquisas de Parapsicologia”(S.P.R.), de Londres, os ‘agentes’ eram diversos grupos de membros da S.P.R., entre eles a famosa metapsiquista Dra. Sidgwick (filha do Dr. Murray). O receptor era o mesmo Dr. Murray...

O êxito, quando entrava em algum dos grupos a filha do Dr. Murray , foi tão evidente que compensava sobejamente a falta de avaliação matemática (absurdamente exigida sempre pela Micro-Parapsicologia). Deve-se notar que o resultado era menor quando a filha do receptor não fazia parte do grupo, e era nulo quando só atuava ela.

Isso quer dizer que se a intervenção da filha estabelecia um “contato” emocional muito conveniente, também o reforço que trazia o grupo era um fator imprescindível para ela, pois sozinha não manifestava suficiente força telepática.

Podemos repetir nada menos que com o prestigiosíssimo parapsicólogo Dr. Eugenne Osty, fundamentando-se em inumeráveis casos análogos: “Há um produtor predominante, embora com seu poder dependendo (...) do seu grupo”.

No caso do Curandeirismo por um grupo, o “produtor predominante” e “ocontato emocional muito conveniente” geralmente é exaltado pelo fator confiança cega nos poderes “mediúnicos” dos curandeiros, pelo relacionamento contagiante de superstição previamente estabelecido entre a sociedade e o paciente, pela angustiante expectativa do doente, etc.

Esclarecimento necessário.

Devemos repetir: A Parapsicologia tem demonstrado que na chamada Sugestão Telepática o papel primordial é do receptor. O “agente” e suas “mandingas”, ritual ou técnicas... não passam de mera condição extrínseca, mero objeto da atividade paranormal do receptor.

A Sugestão Telepática, como o feitiço, como o Curandeirismo à distância, como qualquer outro fenômeno parapsicológico de conhecimento eqüivale no âmbito do paranormal às outras faculdades ou sentidos no âmbito do normal. Como a visão, por exemplo. Quem não tem a vista em bom estado, ou não tem todo o restante dos requisitos psicofísicos da visão suficientemente desenvolvidos e em bom estado, é cego ou mais ou menos deficiente na visão.

Da mesma maneira, para captar à distância a boa intenção do curandeiro (ou a má intenção do feiticeiro), é o receptor que deve ter a telepatia suficientemente “desenvolvida” no seu inconsciente. Do contrário não capta, ou melhor, não manifesta a captação em grau suficiente para ativar a força “curadora” do psiquismo no seu próprio organismo.

Quanto mais parapsicológico, pior.

Por conseguinte e evidentemente, não é o curandeiro que “cura”, nem em presença nem à distância. Em caso de ser captada telepaticamente a intenção do curandeiro, é o próprio paciente que “sara” pelo poder do próprio psiquismo. Na “cura” telepática à distância e na “cura” em presença, o fenômeno essencialmente é o mesmo.

Acrescenta-se, porém, uma grande dificuldade provinda precisamente do aspecto propriamente parapsicológico: essa “cura” psíquica pressupõe a percepção telepática. E a manifestação dos fenômenos parapsicológicos é essencialmente rara, esporádica, incontrolável.

O “Efeito de Reforço” no curandeirismo, lamentavelmente herdado por certos carismáticos católicos (?!)

No artigo anterior, a respeito da Terceira Hipótese, temos dado grande importância ao ambiente geral e ao relacionamento curandeiro-paciente. Além desse influxo já estudado para desencadear a atuação psíquica, também o ambiente e a relação curandeiro-paciente é importante para propiciar o surgimento, alguma vez, das faculdades parapsicológicas do próprio doente. Logicamente caberia esperar que as faculdades e a situação parapsicológica por sua vez propiciassem, em maior grau, nova exaltação do poder psíquico de “cura”.

A este respeito resumia o destacado parapsicólogo Maurice Colinon num Congresso Internacional de *Parapsicologia: “No discurso de diversas intervenções que procederam à minha, me proporcionou particular felicidade ver posta em evidência esta idéia, absolutamente fundamental, que é impossível isolar o fator Psi (parapsicológico em geral) das circunstâncias que o levam a manifestar-se, isto é, no meu caso, do contexto psicológico e social (...) O fator Psi não deve buscar-se unicamente como uma característica do curandeiro. Ao contrário, é muito possível que seja revelado no paciente e, ainda mais provavelmente, na relação curandeiro-doente”.

Na balança.

Se colocássemos nos pratos de uma balança a Medicina e o Curandeirismo, concluiríamos:

1°) Que apesar das maravilhosas faculdades parapsicológicas relacionadas com o Curandeirismo, o Curandeirismo nada pesa, mesmo o mais dotado parapsicologicamente dos curandeiros não oferece garantia nenhuma, nem a mínima possibilidade de algum domínio sobre o seu “método de cura parapsicológica”. Nunca com hora marcada. Raríssimo espontaneamente. Jamais com freqüência, como eles afirmam.

Tudo o contrário da Medicina. A Medicina conta com uma história gloriosa. É indiscutivelmente uma ciência organizada, sistematizada, experimental, capaz de exercer controle severo das forças psíquicas e orgânicas. Com ela, o prato da balança desce totalmente.

2°) Mesmo nos raríssimos casos de auto-“curas” parapsicológicas, como por exemplo nos casos citados da influência de medicamentos sem serem absorvidos, e outros fenômenos similares, é evidente que a faculdade parapsicológica não faz mais do que pode fazer um tratamento científico-médico moderno.

No Congresso Internacional de Utrecht, o Dr. Louis Rose, expondo os resultados das suas longas pesquisas realizadas a pedido da S.P.R. de Londres, declarou “não haver sido capaz de encontrar jamais um só caso ou uma doença realmente orgânica que fosse curada ou nem sequer aliviada (por um curandeiro), onde fracassariam os tratamentos médicos normais após razoáveis tentativas”.

Conclusão. A hipótese da Para-iatria (à margem da Medicina, para designar a suposta “cura” parapsicológica) certamente não é Meta-iatria (mais do que a Medicina) como propagam os curandeiros . A pretendida “cura” parapsicológica seria outro caminho nunca melhor que a Medicina, e sim muito menos freqüente, cheio de perigos , manifestamente inferior ao da Medicina. Portanto, a pretendida “cura” parapsicológica deve ser chamada Hipo-iatria, Infra-medicina, simplesmente Curandeirismo.