O Curandeiro age a distância do doente?

Em Haiti as crianças riem e se divertem, mas os adultos tomam muito a serio o ritual de banhar-se nas águas carregadas pelas forças do Vudú para assim livrara-se de todos os “maus espíritos”

E especialmente água.

Segundo este tipo de curandeiros modernos, a água teria aptidões especiais para ser portadora do “magnetismo”. E inclusive protestam contra os antigos mesmeristas, porque não utilizavam suficientemente a água para receber os passes “magnéticos”.  

           A água “magnetizada” pode ser usada como bebida ou em banhos e loções... Ela encerraria as mais altas qualidades terapêuticas, segundo a vontade do curandeiro “magnetizador”. Não havendo água, não há problema: magnetiza-se o vidro das garrafas, dos copos vazios... Depois é só aplicar sobre a parte enferma. Doenças dos olhos? “Magnetizam-se” os óculos e, melhor ainda, as lentes de contato. A “magnetização” dos alimentos seria muito útil, principalmente nas perturbações digestivas.

O magnetismo na Umbanda.

O Espiritismo é uma amálgama de todas ou quase todas as superstições surgidas ao longo da História. O “alto” (!?) e o “baixo” Espiritismo. Não podiam faltar as elucubrações sobre impregnações fluídicas.

A título de exemplo. Disparata um “mestre” umbandista:

“Os espíritos (?) adiantados podem, pela ação fluídica, aumentar o efeito medicamentoso de qualquer remédio. Podem mais ainda: pelos seus fluídos combinados com o fluído universal (Mesmerismo) e com os fluídos de um médium (...) curador, tornar a água em ótimo medicamento”.

Absorção das doenças.

Parecida com o transporte de “fluidos terapêuticos” impregnados em objetos, seria
o objeto absorver os “maus fluidos” que estariam impregnando o organismo.                                   

Paracelso (Theophrastus Bombastus von Hohenheim, dito), 1493-1541, professor em Basiléia e depois médico itinerante, muitas vezes perseguido por algumas das suas pretendidas inovações em Medicina inclusive a partir das supersticiosas Astrologia, Ocultismo, Alquimia... Quadro de Quentin Metius, Museu do Louvre, Paris.

Paracelso (1493-1541), seus discípulos e seguidores durante séculos, também acreditavam que as doenças se deviam a maus fluidos, que atingiam determinados órgãos, afetando lá o “espírito vital”. Assim, colocando sobre a parte afetada uma fruta, uma planta, um pedaço de carne fresca ou um animal vivo, que atrairiam sobre si os maus fluídos. Depois, afastando estes objetos ou animais, sarariam os doentes.

Melhor empregando algo semelhante ao que se pretende “curar”. Às vezes a técnica era um tanto difícil: “Para curar a dor de olhos pegue o olho de um lobo, esmague-o e coloque-o sobre o olho doente. Para curar os olhos inchados, pegue um caranguejo vivo dentro da água, e ponha os olhos dele no pescoço do homem que está sofrendo, e ele ficará bom”.

Técnicas populares.

São inumeráveis as técnicas de “absorção” empregadas pelos curandeiros.

            Assim, para fazer desaparecer a icterícia (coloração amarela da pele devida á deposição de pigmento biliar nas áreas profundas), há que procurar uma aranha numa estrebaria, e, cobrindo-a com uma casca de noz, aplicá-la sobre o estômago do paciente durante uma hora. E outras vezes... até que a aranha morra por haver  absorvido os maus fluídos. (Ou se a aranha for venenosa, complicará tudo para doente, que até poderá passar para melhor vida... eterna).

            Outra técnica recomendada para “curar” as doenças dos olhos é quebrar e retirar a casca de uma lesma, sem matar o animalzinho, e então colocar a lesma sobre o olho doente mantendo-a lá, amarrada com um pano, durante a noite toda. Na manhã seguinte o bicho deverá estar morto ou asfixiado (Por haver-se-lhe arrancado á casca e amarrado! Nada de “absorção”!)

          Como talvez não se tenham absorvido todos os fluídos, há que renovar a operação com outra ou com várias lesmas, até que se encontre viva a lesma (por sorte ou desleixo na forma de prepará-la): aí então o mal teria desaparecido (com o tempo, se não for grave a doença...).

Freqüentemente os feiticeiros-curandeiros vestem-se com cabeças de animais, inclusive de touros ou de veados, com a absurda intenção de impregná-las com os “fluidos vitais” que nos curandeiros abundariam e depois transferiam esses fluidos aos doentes. Ou pelo contrário com o mesmo método extrairiam dos doentes os maus “fluidos”, enterrando depois as cabeças dos anima

Para curar o câncer, pegar um sapo grande que tenha ficado em jejum e colocá-lo sobre a parte doente durante nove dias. Se o sapo morrer, deverá ser substituído... Em vez do nojento sapo, podem-se empregar bifes bem sangrentos. Se não conseguiu paralisar a doença (por Sugestão), deve-se substituir também os bifes todos os dias (até que o paciente já sem dor por Sugestão, achando-se curado, morra!).

              Para a enxaqueca, partir ao meio uma pombinha branca, colocando-a sobre a cabeça do doente durante seis horas. Ao cabo das seis horas, se o doente ficou quieto (para que não caia a pombinha!) e relaxado, é praticamente seguro que a enxaqueca terá passado (pelo relax! Ou por si mesma em seis horas!).

            O mesmo remédio se recomenda para a meningite: caso a cura não sobrevenha (claro que não, se o diagnóstico de meningite está correto), é porque o tratamento foi aplicado tarde demais (morte por haver esperado com tal “tratamento” em vez de acudir ao médico aos primeiros sintomas!).

Umbanda

a Umbanda brasileira oficializou o “transplante”, como oficializou tantas outras superstições. Assim, por exemplo, o ritual de “troca de cabeça”: as doenças de uma pessoa se transplantariam para outra por meio de um objeto “impregnado”

            A operação consiste em concentrar por meio de “encantamentos” (?) em qualquer objeto ou roupa do doente os males que o atormentam. Encerrá-lo numa embalagem atraente e abandoná-lo em qualquer ponto freqüentado, para despertar a atenção dos transeuntes. Se um deles tocá-lo, por curiosidade ou inadvertência, atrairá para si os males que simbolicamente ali se encontram e o verdadeiro dono ficará livre deles.

Ritual de curandeirismo, por exemplo na Indonésia. Em vez de vestir-se com peles e outros membros de animais, disfarçam-se chamativamente. Curiosa a juba do leão, e mais curiosa à posição e até com rabo imitando ao macaco.

Este ritual é muito usado. No museu do “CLAP” temos muitos destes embrulhos em “embalagens atraentes”. Os umbandistas e muitas outras pessoas já impregnadas pela superstição ambiente, quando nos visitam (inclusive com má intenção e mesmo correspondendo aos nossos desafios) maravilham-se de que não estivéssemos já todos mortos por causa das “embalagens atraentes” e outros feitiços recolhidos e aqui conservados. Por fim alguns sentenciam: “Vocês estão com o corpo fechado. É muito forte o santo que vos protege”!

Vemo-nos obrigados a responder: “Curioso: aqui todos ridicularizamos esses poderes de orixás, exús, espíritos, demônios... agindo no nosso mundo; feitiços, trocas de cabeça e demais superstições... e ainda eles nos protegem?”



Descarga.


Em contraposição ao “magnetismo” impregnado na água, há no Espiritismo a água que descarregaria o corpo. Os banhos de mar e cachoeira servem também para fortalecer a ação de descarrego das guias, colares e rosários. Os banhos de ervas têm ação terapêutica, sendo que a arruda, a guiné, o sal grosso e o fumo também exercem ação desimpregnante sobre o paciente”. Os espíritas desprezam os médicos que ignoram esses descarregos... 

É claro que a sugestão é mais excitada colocando a vela sobre um crânio com olhos postiços exorbitando, e com a nudez da “médium curadora”

Às vezes recomendam banhos repugnantes. Para tirar os “maus fluídos” provocados por uma “praga” ou “mal olhado” ou qualquer dessas superstições em que eles vivem mergulhados, recomenda-se pegar as fezes de um boi completamente preto, pô-las dentro de um pano e amarrar as bordas do pano de modo que as fezes não saiam. Colocar uma panela com água no fogo e, quando a água estiver fervendo, colocar no interior o saco e deixar dar uma boa fervura. Quando a água estiver morna, tomar com ela o banho. Dentro da lata que cozinhou, pôr o que puder apanhar da água após o banho juntamente com o pano e as fezes do boi preto, deixando-a na encruzilhada; pedir ao “exú do boi preto” que leve todas as cargas de feitiçaria, maus olhados, pragas etc.”.

E a cura?

Estaria subestimando a inteligência do leitor se pensasse que é necessário refutar as pretensões de tais impregnações, descargas e “transplantes” fluídico-terapêuticos.

Como também não é necessário frisar que qualquer “cura” decorrente de tais práticas não passaria de mero efeito da sugestão contra a dor e outros sintomas, mas ficando a doença psíquica ou orgânica.

Como já indicamos inúmeras vezes, tem-se demonstrado que os mesmos efeitos das águas “magnetizadas” se obtêm com água comum, desde que se afirme que está magnetizada, assim como deixam de aparecer as “curas”, com água “magnetizada”, afirmando-se a essas pessoas supersticiosas que não houve “magnetização”. Tais experiências têm-se repetido à saciedade, principalmente após Mesmer haver posto em moda o “magnetismo” e pretendido dar-lhe cunho científico. Chegou-se então a administrar grandes quantidades de ferro aos doentes para torná-los mais sensíveis à ação do “magnetismo”!

Por sua parte, as desimpregnações, descarregos, ou limpezas são “ao gosto do consumidor”. Os mesmos efeitos são conseguidos com qualquer outra técnica sugestiva sem pretensão alguma nem possibilidade de desimpregnação por contato ou transplante.

Inclusive com bebês.

A explicação é a mesma quando se trata de criancinhas. É evidente que um bebê não está sabendo nem sequer o que se pretende com todo o ritual de “limpeza” ou transplante. Mas os bebês, repetimos, vivem como por osmose. Os bebês, certos bebês, ou em certas ocasiões, são muito capazes de captar o ambiente otimista ou pessimista, a esperança da “cura”, ou o medo ao “mal olhado”, a ansiedade ou tranqüilidade dos familiares que os rodeiam.

            Por exemplo, entre tantos: O senhor Claudir Espíndola, de Governador Valadares (Minas Gerais), comunicava-nos este “fenômeno estranho”. Contado a ele, por pessoa de inteira confiança:

            “Uma criancinha de quarenta dias não dormia senão durante o dia. Foram tomadas as providências necessárias, incluindo receituário médico, para conciliar o sono da criança durante a noite. Nada disso adiantou. A avó da criança aconselhou o pai que fizesse a seguinte simpatia: colocar sob o travesseiro do bebê uma tesoura. A criança passou a dormir placidamente todas as noites. Isto aconteceu logo na primeira noite”.

            Poder das pontas da tesoura contra os maus espíritos ou maus fluídos? Absorção dos maus fluídos pela tesoura? Simplesmente superstição e sugestão.

É claro que muitas vezes em vez de queimar o animal “transportador” da doença, é mais fácil deitar no fogo pó dos pelos do animal e até de cadáveres roubados nos cemitérios, imaginando que se está queimando o animal e os “maus espíritos”. Gravura de Vandervelt (século XVII), Biblioteca Bodleiana, Oxford

Da criancinha? Dos pais, que supersticiosamente acreditavam na simpatia receitada pela velha e então se acalmaram e, assim, o bebê deixou de captar angústia e tensão e passou a captar calma. O mesmo efeito haver-se-ia conseguido com qualquer outra “terapia”, a condição de ser aceita por aquela família. Ou simplesmente, como recomendam nestes casos os pediatras, afastando a criancinha da mãe preocupada, pondo-a em outro quarto.

Uma cena impressionante.

O Rev. Padre
Trilles, missionário na África, descreve com detalhes a cena típica do curandeiro entre as tribos africanas: “O Pajé, ou o chefe do terreiro, primeiramente anuncia sua fórmula mágica que em seguida receita. Depois entra em transe, e dança até ficar esgotado. Durante a dança anuncia o transplante da doença de algum dos pacientes para o corpo de um animal ou para uma árvore. É uma cerimônia das mais estranhas; vê-se sob a influência dos passes magnéticos o doente acalmar-se pouco a pouco e, depois de ter suado abundantemente (pela esperança angustiada!), adormecer calmamente (hipnotizado ou sugestionado e condicionado!), enquanto que o animal treme, geme e deita-se por terra enrijecendo de repente e caindo como uma massa, e muitas vezes morre agitado por arrepios convulsivos. Nesse caso geralmente usam um cabrito e muito amiúde um cachorro de estimação do doente”.