O Poder Curativo das "Simpatias"

Num artigo anterior havíamos distinguido quatro hipóteses teóricas de influência Parapsicológica no campo de Psicohigiene (Curandeirismo). Corresponde agora abordar a Terceira Hipótese.

Influxo direto do próprio doente sobre o próprio organismo ou doença, sendo o curandeiro mera sugestão em presença, ou sugestão telepática em ausência, ou mera imaginação do doente.

Escola Norte-americana.

Comecemos insistindo contra o erro dos parapsicólogosdesta escola, que chamamos Micro-Parapsicologia (sabem muito pouco, e o pouco que sabem o misturam com muitos erros) a faculdade parapsicológica de efeitos físicos seria ela mesma de natureza PN (Para-Normal, extra-sensorial, espiritual), conhecida pelo nome de faculdade PK (Psi-Kappa). Sendo espiritual, poderia atuar a qualquer distância, através de quaisquer obstáculos, no passado e no futuro...

A Micro-Parpsicologia, como na era paleolítica e muitos supersticiosos hoje, atribui ao curandeiro (como ao feiticeiro etc.) essa inexistente faculdade de influir à distância. O feiticeiro ou curandeiro... possuiria poderes mágicos, emitiria forças misteriosas (PK) capazes de atuar sobre objetos físicos distantes! (por exemplo sobre o corpo do doente ou sobre os seus elementos patógenos).

 

Defensores de prestígio

Entre os índios primitivos, como no Espiritismo afro-brasileiro, o pajé, como o babalorixá-curandeiro, pensa que “impregnando” no círculo mágico os chifres de um touro sacrificado, consegue destruir todos os males de determinado doente

Entre os defensores desse erro devemos destacar alguns autores, célebres por outros motivos, mas sem conhecimento algum de Parapsicologia. Na sua “HistóriaNatural”, Plínio, pelo ano 77 a.C., dizia que a magia, má na sua intenção, poderia apresentar, excepcionalmente, outra face “curativa”. Segundo Plínio, a magia poderia atuar fisicamente à distância. Entre os que a empregavam para “curas” à distância, cita a Pirro.

Avicena, famoso médico e naturalista do século X, é citado por São Tomás de Aquino no século XIII como atribuindo a certos homens o poder espiritual (PN, Paranormal) de “cura” à distância: “Se a alma (...) não está sujeita a paixões do corpo e tem forte poder de sugestão, não só pelo próprio corpo será obedecida, mas também pelos corpos de outras pessoas (distantes) curando as doenças” (É a Segunda Hipótese de “cura” parapsicológica, hipótese já refutada no artigo anterior). São Tomás de Aquino discordou de Avicena em atribuir o fenômeno à purezada alma, pois a conceituação moral, em si, não influi na natureza, como é evidente. Mas aceitava um poder anímico de efeito físico para “curar” à distância. Ação física à distância por uma força espiritual: Idêntica à inexistente chamada PK.

(Insisto: nem Avicena nem São Tomás de Aquino pensaram em atribuir o fato à adivinhação, pelo paciente, dos bons desejos do “curador” e que por esta adivinhação haveria um real incentivo ou real estímulo, seria o curandeiro catalisador para que agisse o próprio paciente no próprio organismo. Isto é a quarta hipótese que teremos que estudar no tema da Psicohigiene).

Na Assembléia de Montpellier.

Em 1643, e por motivos políticos, foi pronunciado um longo discurso (umas 25 mil palavras) que exerceu muita influência durante muitos anos. O desterrado político, ex-chanceler inglês, Kenelm Digby, em discurso proferido em sessão solene na assembléia de Montpellier, apresentava os ensinamentos “terapêuticos”, que teria aprendido de um velho monge carmelita residente em Florença que, por sua vez, o aprendera quando missionário na Índia.

No discurso se revelava o segredo até então zelosamente guardado. Digby antes só o revelara ao rei. Após o discurso, porém, o segredo se revelaria num livro para a lucrativa venda massiva (já então havia técnicas em truques publicitários!).

Segundo Digby , o “Poder das Simpatias” pode “curar” à distância, mesmo sem conhecimento do paciente.

Ele destaca que não se trata de magia diabólica ou espírita nem nada semelhante, nem do poder de sugestão como as chamadas “curas pela fé” das seitas de curandeiros já existentes na época.

As crendices de Digby. Tratar-se-ia do poder curativo do universo, captado e armazenado pelo sulfato de ferro ou de cobre (vitríolo) em determinadas circunstâncias. Este sulfato era o “pó de simpatia”. Tal força “curativa” do “pó de simpatia” transferiria do objeto ao paciente inclusive ausente misteriosas ações dos raios solares aliados às partículas viscosas dos quatro elementos materiais, junto ainda com a emanação impalpável de aromas diversos e sutis... (!?).

 

Acreditam que impregnando de sangue a estatueta do exu, este burlar-se-á (língua) de todos os inimigos e manterá vivo (coração)o cliente que tanto pagou...

Na realidade, Digby fez-se eco da antiquíssima crendice dos egípcios (ainda persistente nos espíritas, teósofos, ocultistas...), na “cura” por simpatia ou representação. Acreditavam que a roupa íntima ou objetos usados se impregnavam pelo “Ka” (depois chamado “força vital”, “duplo etérico”, “magnetismoanimal”, “periespírito” e tantos outros nomes designando tal disparate). Encontrando-se dificuldades em pegar alguma prenda íntima ou algum cabelo, unha, etc., também desde época imemorial passou-se a empregar a representação da pessoa em questão com uma estatueta de cera, boneca de trapo, etc. Nela, magicamente, também residiria o “Ka” (o “duplo”, etc.).

Pois bem, toda ação para o mal ou para o bem que se exerce-se sobre o objeto ou representação, repercutiria à distância sobre a pessoa representada ou o dono desses objetos.

No século XVI, o “poder de simpatia” encontrara , em Paracelso (1493-1541) um defensor de prestígio. Posteriormente Sir Kenelm Digby (1603-1665), o célebre político e escritor místico (?) católico e o velho monge carmelita que o convenceu, só seguem as teorias de Paracelso.

Essas teorias, porém, não é preciso frisá-lo, estão cheias de muitas outras superstições tradicionais. Por outra parte, aceitar “emanações impalpáveis de aromas”, “essências”, “partículas” que, apesar de “úmidas e viscosas”, são tão sutis que podem “transferir-se de objeto ao paciente” à distância, é demais. Simplesmente contraditório!

Mas a teoria “terapêutica” (?) de Digby e suas “explicações” (?), no começo só toleradas, chegaram a ser preferidas aos métodos “menos modernos” (?) da Medicina. Digby encontrou defensores entre tantos desorientados “filósofos” naturalistas do século XVII. Inclusive alguns médicos se ergueram em paladinos dos encômios à “incomparável descoberta” (?).

“Sarou” dagangrena.- Com esse método, e segundo Digby, um ilustre senhor chamado James Howell , haveria sido “curado” das feridas recebidas quando tentava separar dois amigos, que se batiam em duelo. Dois cirurgiões haveriam realizado mal (?) o seu trabalho, pelo que foi solicitada a intervenção de Digby para deter a gangrena de uma mão.

Digby nem sequer examinou o paciente. Pediu um objeto que se tivesse impregnado do sangue de James Howell. Recebeu uma liga de meia (jarreteira, com a qual lhe haviam feito um curativo de urgência no local do duelo). Digby mergulhou a liga numa vasilha de água onde previamente depositou o seu misterioso “pó de simpatia”: Howell percebe uma sensação agradável na mão doente e não sente mais dor. Uma hora depois Digby retira da água a liga de meia e a traz perto do fogo: Howell sente um calor abrasador, como se colocasse a mão sobre brasas. Digby mete de novo na água “curadora” a liga de meia, e Howell se sente aliviado. “Ao fim de cinco a seis dias as feridas estavam completamente curadas e cicatrizadas” (?).

Digby assegura que foi devido ao “poder de simpatia” (no sentido etimológico do termo: sentir conjuntamente) entre Howell e a liga de meia.

Segundo a superstição, toda a sexualidade e paixão impregna a galinha sacrificada que, deixada ocultamente perto do pretendido pela consulente, a transmitirá a ele

Comprovação real. O rei Jacques haveria comprovado pessoalmente o “poder da simpatia”: Havendo ouvido falar do prodígio, o rei foi visitar Digby, acompanhado pelo duque de Buckingham. Howell estava ausente, na sua casa. Digby colocou na água a liga, previamente impregnada com o “pó de simpatia”, e colocou tudo junto ao fogo. Pouco tempo depois, chegou o lacaio de Howell correndo para comunicar que subitamente tinham voltado as dores ao seu senhor, que se queixava de um calor insuportável no antigo ferimento. Digby mandou dizer que seria aliviado imediatamente. Bastou retirar a liga de junto do fogo...

Pingos nos is. Suponhamos que o fato não esteja colorido, o que em certos aspectos e analisadas todas as circunstâncias é muito supor: o truque é facílimo, e mais sendo tudo arquitetado pelo próprio curandeiro para sua própria propaganda; é contado sem verificação nem testemunho de especialistas, etc.

Mas suponhamos... Em si, o fenômeno, isto é, o efeito (não a absurda explicação da “simpatia”) é possível. Em primeiro lugar, contra as propaladas forças curativas à distância do “pó da simpatia”, tenhamos em conta que, na realidade, neste caso não houve tal distância. Digby e Howell estavam na mesma habitação. Com esta observação, a sensação agradável, o calor, a “cura” não passam de efeitos perfeitamente explicáveis pela mais comum das sugestões, indireta, mas incutida em presença.

É truque tão freqüente como fácil. Após simular total paralisia, levanta o pastor curandeiro que o pagou. E o numeroso público se sugestiona

Repetimos: os efeitos são possíveis. Parapsicológicos, certamente, e portanto esporádicos.

Digby obteve êxito com uma pessoa especial. Mas certamente que não foram muitos os seus êxitos com quaisquer outras pessoas.

Recolhendo, porém, de um lugar e de outro, antigos e modernos, poderíamos citar inúmeros casos idênticos ou muito parecidos, com “pós de simpatia”, com objetos “impregnados”, com estatuetas, com papéis contendo o nome, com fotografias, com sapos... Com mil técnicas “a gosto do consumidor”.