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Entre tantíssimas superstições de curandeirismo, mais uma técnica “a gosto do consumidor” |
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Como se explica o fenômeno? Comecemos por prescindir dos objetos. Analisemos os próprios efeitos, limpos, sem pós nem mandingas. Analisar o fenômeno limpo já é um grande passo para compreender a sua explicação. Um exemplo moderno:
“Transferência” de sensibilidade. A Sra. J. B. era esposa de um destacado advogado de New York. Tinha cerca de quarenta anos, era bondosa, amável e complacente. Havia desenvolvido uma harmonia de solidariedade afetiva com seu marido, até o ponto de ter consciência de muitas das emoções mais fortes do esposo, mesmo quando este se achava a quilômetros de distância.
Numa ocasião, os membros da “Sociedade de Pesquisas Psíquicas” (SPR) de New York se achavam na casa dessa senhora preparando experiências. A Sra. J. B. encontrava-se numa ampla sala de recepção entre as senhoras do Instituto, conversando animadamente, enquanto três ou quatro homens se achavam em companhia do senhor João B., o esposo, numa varanda, fumando, aguardando a hora de começar a reunião.
Sem qualquer aviso, um dos pesquisadores subitamente e com certa violência bateu com um espeto no braço do senhor João B. , como se fosse um acidente. O Sr. João deu um salto enquanto no rosto aparecia uma expressão de dor, mas não gritou. Menos do que uma fração de segundo depois, ouviu-se um forte grito. Era a Sra. J. B. , que se achava a uns 25 metros de distância do marido, separada dele por várias salas cheias de pessoas que conversavam e caminhavam.
Quando se ouviu o grito da Sra. J. B. , todos correram para lá. As primeiras palavras da senhora foram: “ João deve ter sentido algum golpe doloroso em seu braço, precisamente aqui; eu o senti. Desejo ver o que lhe aconteceu”.
“Não há ação à distância”
É evidente que o espeto não feriu diretamente o braço da Sra. J. B., como se a sensibilidade dele se exteriorizasse até o braço da esposa ou vice-versa. Alguns antigos metapsíquicos acreditavam na Exteriorização da Sensibilidade, mesmo a quilômetros de distância!
São muitas as experiências que pareceriam comprovar (?) a inexistente
“Exteriorização da Sensibilidade” a qualquer distância, através de qualquer obstáculo, inclusive para o passado e para o futuro. Mas, por exemplo o grande parapsicólogo russo, Dr. Vassiliev ( Léonid Léonidovth Vasiliew, 1889-1964), diretor do Instituto de Parapsicologia na Universidade de Leningrado, com observações e experiências desse tipo, acabou por compreender, como é evidente, que trata-se de captação telepática por parte do receptor.
E, mais uma vez, contra a afirmação absurda da Micro-Parapsicologia ou Escola Norte-Americana: não existe PK.
É preferível com outra pessoa
Damos importância a casos como o da Sra. J. B., sem objetos “impregnados” nem eqüivalentes, porque tais casos são muito elucidativos para a compreensão do curandeirismo à distância. Os objetos “impregnados” são completamente dispensáveis: eles não têm força “mágica”, eles não desempenham por si mesmos tarefa nenhuma na “cura”. O curandeiro e o “curado”, que neles acreditam, têm neles simplesmente o suporte material para sua superstição, crendice irreal, fantasia infundada.
O “objeto” só poderia ter um papel a desempenhar quando é constituído por outra pessoa. Para a “cura” nada valem em si mesmos o animal, a planta, a substância empregada na “simpatia” (ou no “transplante”, ou “impregnação”, ou “descarga” etc.)
Mas outra pessoa em tais funções alguma vez poderia ter algum valor para essas “curas”. Já o descobrira há muito tempo o chamado “Doutor Admirável”, o frade franciscano Roger Bacon (1214-1294), pai do método experimental em ciência. Bacon, além de ser o primeiro a propor métodos experimentais para verificar fenômenos que hoje chamamos parapsicológicos (vários esboços destes experimentos aparecem em diversos lugares do seu “ Sylva Sylvarum”), verificou a “cura” por “sugestão suplente”. O termo é do próprio Bacon.
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Não é o copo que absorve a doença. Não é o lenço que protege de todo mal. Como dizia Roger Bacon: Esses “remédios em si mesmo nada valem”, tudo depende da “sugestão suplente”. A chamada em Parapsicologia “Harmonia de Solidariedade Afetiva”
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Escreve no livro citado: “Querendo curar por meio da esperança a um cavalheiro doente (de doença influenciável psiquicamente), procure-se um dos seus criados que seja de natureza crédula. Quando o cavalheiro estiver dormindo, faz-se beber ao criado alguma cocção inócua (um placebo ), e diga-se-lhe que com isso seu amo sarará em certo espaço de tempo. A imaginação do criado se tornará favorável pela sua completa fé em vossos poderes curativos. Aceitará a imagem da cura com grande força. Este convencimento se exteriorizará e influirá no mesmo sentido na imaginação do seu amo, também em estado de receptibilidade por estar dormindo”.
A frase é de uma riqueza extraordinária de conceitos. Traduzindo expressões da época a termos modernos: O consciente é menos crédulo e menos influenciável. Facilita-se essa comunicação pela inconsciência do amo: “estado de receptividade por estar dormindo”. É escolhido um criado ignorante, supersticioso, nada crítico, crédulo, até o extremo de ficar firmemente convencido de que ele bebendo, infalivelmente beneficiará a seu amo. Porque Há uma ligação afetiva profunda entre o criado e seu amo (naquela época de fato era muito freqüente que os criados considerassem a seus amos como pais e, se possível até mais, pela total afeição e dependência). É o “rapport”, que facilita a comunicação parapsicológica. Por isso é que tecnicamente é chamada por alguns parapsicólogos: “Harmonia de Solidariedade Afetiva”. No objeto, o percipiente não teria mais do que um suporte subjetivo para a sua superstição. No homem, porem, pode captar a idéia confiante e segura da “cura”. Animado por essa confiança total na “cura”, que ele capta inconscientemente do criado, o próprio psiquismo do amo faz a “cura”.
À luz da moderna Parapsicologia, nada se pode acrescentar à breve, mas fecundíssima síntese que há já quatro séculos formulou o filósofo do empirismo, Francis Bacon.
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No tema da “impregnação”, já Homero descreveu pateticamente que para aplacar Artemisa, deusa das doenças, o rei Agamenón, de Troya, concordou em sacrificar sua filha Efigênia. Na feitiçaria e curandeirismo, sacrificar pessoas é mais freqüente do que parece...
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Nenhuma experiência cientificamente válida e nenhum caso, se bem analisado, permite suspeitar a existência no homem, no curandeiro, nos remédios, de um poder de “cura” à distância. À distância, o curandeirismo “parapsicológico” como tal se reduz, pois, ao curandeirismo meramente de aparência parapsicológica.
A paraiatria à distância (no tempo e no espaço), suposta a adivinhação parapsicológica, é unicamente poder do psiquismo do paciente sobre o próprio organismo.
O fenômeno passaria portanto a enquadrar-se na quarta possibilidade teórica em que dividíamos antes a “cura” parapsicológica. Vamos falar dela no próximo artigo.
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