Os Demônios são contagiosos?
BODE, REPRESENTAÇÃO DO DIABO. Por que? Em muitas mitologias os demônios ou divindades perversas são representadas pelo bode, em seu habitat.

Os antigos judeus conheciam este simbolismo, recebido das mitologias circunvizinhas. Se’irim geralmente pode ser traduzido por bode. Habitam os lugares altos, os desertos, as ruínas... No Gênesis se diz que os filhos de Jacó degolaram um bode para com seu sangue manchar a túnica de José (Gn 37,31).

O termo vulgar bode é designado pela mesma palavra que se emprega em outras partes para designar um sátiro. A palavra hebraica sa’ir significa propriamente o peludo e se aplica tanto ao bode como a qualquer outro sátiro, demônio ou divindade inferior, na mentalidade popular.


“Jerobão estabelecera sacerdotes para os lugares altos, para o culto aos sátiros (os peludos) e aos bezerros que ele tinha fabricado” (2Cr 11,15). Isaías diz das ruínas de Babilônia e de Edom que “os sátiros ali dançarão” (Is 13,21), para lá “os sátiros chamarão os seus companheiros” (Is 34,14). No livro dos Reis (2Rs 23,8) refere-se que Josias destruiu um templo dos lugares altos, porque lá os sacerdotes ofereceram sacrifícios. É provável que tais sacrifícios, contra a proibição de Moisés, fossem oferecidos precisamente a bodes. No Levítico (17,7) se diz que certos judeus se prostituíram com o bode: “Não mais oferecerão seus sacrifícios aos sátiros (bodes, em tradução exata), com os quais se prostituem. Isto é uma lei perpétua para eles e para seus descendentes”.

O termo prostituição no texto citado do Levítico, como também em diversas outras passagens bíblicas significa que foram religiosamente infiéis. A tradição ocultista desconhece essa metáfora e toma ao pé da letra o termo prostituição. Assim, pela tradição esotérica, o bode é um símbolo universal da sexualidade desmedida.


Inspirando-se em Azazel, o deus bode do deserto, tradicionalmente o Diabo é representado por um bode. “Adora” banhar-se em sangue humana e comer o coração...
Compreende-se que nas fantasias demonológicas concebam Satanás em figura de bode e que o situem nos descampados e nas ruínas.

A ORIGEM DO SABBAT.

O bode representa um dos deuses subalternos do grande Azazel, deus ou temível príncipe dos demônios do deserto. Freqüentemente mencionado pelos apócrifos, Azazel só aparece na Bíblia numa oportunidade, na descrição do rito de expiação:

O sumo sacerdote “receberá da comunidade dos filhos de Israel dois bodes destinados ao sacrifício pelo pecado (...) Lançará a sorte sobre os dois bodes, atribuindo uma sorte a Iahweh e outra a Azazel. Aarão oferecerá o bode sobre o qual caiu a sorte para Iahweh e fará com ele um sacrifício pelo pecado. Quanto ao bode sobre o qual caiu a sorte para Azazel, será colocado vivo diante de Iahweh para fazer com ele o rito de expiação, a fim de ser enviado a Azazel, no deserto (...) Aarão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode e confessará sobre ele todas as faltas dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados. E depois de tê-los assim posto sobre a cabeça do bode enviá-lo-á ao deserto, conduzido por um homem preparado para isso, e o bode levará sobre si todas as faltas deles para uma região desolada” (Lv 16,5.8-10.21s).


Iahweh é contraposto a Azazel, o deus sa‘ir ( deus bode) por excelência entre os se’irim (deuses bodes). Por isso se lhe enviava um sa‘ir (animal bode). Os israelitas não lhe sacrificam o bode, simplesmente o enviam para ele carregando os pecados. Assim batizam o rito de expiação com que os pagãos pretendiam aplacar o terrível Azazel, a fim de que não enviasse o ardente vento do deserto que queimaria as plantações e causaria doenças entre homens e animais.

Pouco se sabe do culto originário pagão a Azazel. Parece, porém, pelo simbolismo universal do bode, e pelo retirado do lugar em que se oficiava o culto, que já naquela antiquíssima data se praticavam as orgias sexuais, demonolatria e magia que depois se chamariam sabbat.

ALUCINAÇÃO. MAS TAMBÉM REAL. Meu primo, Pedro G.-Quevedo, publicou um livro em que demonstra a falsidade histórica do sabbat no seu conceito estrito. Não aparecia Satã em forma de bode, não havia o obsculum obscenum (beijo ao Diabo sob o rabo!), nenhuma bruxa voava ao sabbat, nem existem íncubos e súcubos (demônios machos e demônios fêmeas copulando com seres humanos e gerando filhos do demônio), etc.

O “obsculum obscenum”. E se tinham agradado muito ao Diabo, seriam recompensados com uma... ventosidade

Mas a tese, incontestável e óbvia, não debilita o fato de que houvesse, como houve na antigüidade pagã e como há hoje, bacanais, cultos da fertilidade, reuniões de satanistas, de umbandistas etc. com orgias sexuais...

Bem nas origens do cristianismo na Espanha, os celtas, para protestarem contra a nova Religião, incrementaram seu culto ao deus Pan, acompanhando-o de um simbolismo escuro, libidinoso, de deboche aos ritos cristãos. A tradição se ampliou e degenerou cada vez mais incrementada por ex-cristãos revoltados, até converter-se em festa satânica na época da bruxaria. Desta origem e desenvolvimento histórico estão convencidos inclusive os teóricos do satanismo moderno.

Apesar de que a bruxaria na Espanha foi bem menos significativa do que no norte da Europa, houve o suficiente para possibilitar a aguda observação de Pedro de Valência. A propósito dos pretendidos e inexistentes sabbats de Zugarramurdi (Vascongadas, Espanha), lá chamados “aquelarres”, Pedro de Valência estendia a todos as partes sua visão, constatando que existem inegavelmente reuniões de pessoas desenfreadas que “com desejo de cometer fornicações, adultérios ou sodomias, tenham inventado aquelas reuniões e mistérios de maldade em que alguém, o mais astuto, se finja de Satanás e se disfarce com aqueles chifres e veste horrível de obscenidade e sujeira que referem”.

Iam por seus pés àqueles sabbats, aliás não eram longe, não precisavam da vassoura voadora... As mortes e doenças não eram castigos ou feitiços por poderes demoníacos: eram abusos sexuais exacerbados, vinganças, doenças e mortes provocadas pelos venenos aplicados..., e também crimes em forma de sacrifícios (= ação sagrada!) oferecidos a Satanás. Por mais que se “encobrissem com silêncio e trevas” como se fossem infernais, todas aquelas reuniões e ações não passam de “obras humanas e naturais, invenções de trapaceiros, delitos e ignomínias entre homens e mulheres, sem magia nem eficiência maravilhosa”.


CONTÁGIO PSÍQUICO. Paradoxalmente a perseguição às bruxas foi a causa principal de sua prodigiosa proliferação.

No começo do século XVII, o inquisidor espanhol Alonso de Salazar y Frías, entre os “argumentos (...) para provar que são ilusões e sonhos o que confessam as bruxas”, suplicava que acabassem com os escritos, com os processos, com a perseguição... Tinha comprovado que não havia quase nenhuma pretensão de ser bruxa ou possessão demoníaca “até que se começou a tratar e escrever delas”.

À mesma conclusão chegariam os psiquiatras no começo do século XIX, quando ainda eram recentes os últimos processos e enforcamentos: a bruxaria fora uma loucura que chegou a constituir uma epidemia por muitos séculos.

E tal conclusão foi confirmada desde o inicio pelos parapsicólogos. O pioneiro da Parapsicologia e Prêmio Novel em Fisiologia, Charles Richet, não duvidou em equiparar as “doentes demoníacas de tempos passados” com as histéricas de hoje, o que lhe deu ensejo a considerar a bruxaria como doença contagiosa.

Juste Louis Calmeil, num livro famoso, apresenta uma coleção impressionante de exemplos deste contágio. Talvez seja o primeiro em chamar esse contágio psíquico com o termo “demonomania”. Oh, quanto têm que aprender hoje todas essas seitas nas quais tudo gira ao redor dos demônios!


DOENTES À SOLTA. Naquelas épocas, nem sequer os loucos eram hospitalizados. Qualquer doente psicológico e parapsicológico era considerado endemoninhado ou enfeitiçado. Não sendo atendidos, davam mais nas vistas do público.

Na Palestina de Jesus –e ainda hoje no Islã”!– dominava o pânico aos demônios, sempre considerados causadores das doenças psíquicas, internas. Nunca as externas, que aparecem por fora, como a lepra, corcunda, mão seca... Os contemporâneos de Cristo estavam habituados a ver os endemoninhados pelas ruas (alarmando e contagiando as pessoas sugestionáveis).

Em Samaria muitos endemoninhados ficavam concentrados, à vista do público apavorado, nas proximidades dos túmulos dos profetas Elias e Abdias. E posteriormente de João Batista.

Os Evangelhos descrevem com pormenores um endemoninhado vociferando durante o culto na sinagoga (Mc 1,23-26par), outro gritando pelos sepulcros e pelo monte, e golpeando-se com pedras (Mc 5,5par).

Antigamente só as doenças mentais. Mas hoje várias seitas afirmam enfaticamente que todos as doenças se devem aos demônios!

São Jerônimo (347-420) descreve a degradante situação a que chegavam, na sua época, os endemoninhados pelo contágio mútuo: “Como se fossem demônios sob diversas torturas, eles urravam diante das tumbas dos santos, latiam como cães, bufavam como leões, sibilavam como serpentes, urravam como feras, enquanto outros atiravam as cabeças para baixo, voltavam-nas para trás e tocavam a terra com seu vértice”

DOIS MENINOS ESPALHAM DEMÔNIOS. Nos tempos modernos, um dos casos mais famosos de endemoninhados (de “claríssima evidência” segundo os defensores desta interpretação demonológica) é o dos endemoninhados de Yllfurt.

A impressionante grandeza e variedade dos fenômenos apresentados por duas crianças, os irmãos Teobaldo e José, contribuiu para que o contágio psíquico se alastrasse. Mas, em contrapartida, o mesmo contágio é um poderoso argumento contra a interpretação demonológica. Por que o demônio haveria de ser contagioso?

Diversas famílias de Yllfurt se contagiaram. Na família Brobeck, entre muitas diabruras, “uma outra vez o maligno se divertiu em extrair (Aporte em Parapsicologia) o fruto de grande quantidade de nozes (...) e não é necessário insistir no estupor que se apoderou de todos quando viram as nozes com a casca perfeitamente intacta, só marcadas com uma pequena arranhadela”.

Na fazenda da família de Benjamim Kleiber, “os desgraçados proprietários deviam atravessar provas bem dolorosas. Em mais de uma ocasião tiveram de ir chamar o pároco para que lhes benzesse a casa e a estrebaria”.

Dando maior mostra do contágio psíquico, os vizinhos do outro lado da fazenda também haveriam sido perseguidos pelos demônios. Em duas noites o demônio destruiu (Telecinesia) as abelhas de vinte colmeias, todas as abelhas foram decapitadas. “O senhor Brobeck fez benzer as colmeias e os novos enxames, e a potência do mau anjo destruidor foi aniquilada”.

Também o padre Stumpf, o pároco de Estraburgo, e o seu vigário e acompanhante, sofreram ataques de Satã. Por exemplo, vindo “um dia em carruagem (...) para visitar Teobaldo, este, que estava tamborilando (Tiptologia), irritadíssimo, sobre os vidros da janela, o vislumbra de longe, o reconhece e grita imediatamente: ‘Ah!, esse canalha, hei-lo de novo aqui! Espera, que vou te divertir’ Dois minutos depois uma das rodas se soltou (Telecinesia), e os dois sacerdotes tiveram de descer da carruagem e fazer a pé o que faltava (pouco) do caminho”.

Houve outras muitas vítimas dos demônios: o padre Schrantzer, o Sr. Tresch, a família Zurbach etc.

Mesmo após a cura dos endemoninhados, o padre Erey, pároco de Yllfurt, foi objeto de “freqüentes ataques do demônio”, até a morte. Havia levado uma vida exemplar, morrendo com fama de santidade (graças ao demônio!) Muitas pessoas se converteram ao Catolicismo, graças às freqüentes façanhas dos demônios..., assim transformados em apóstolos!

Na realidade os fenômenos ocorridos são plenamente explicáveis em Parapsicologia. E certamente não tem explicação demonológica. Mesmo que não soubéssemos explicar ainda os fenômenos, o fato do contágio psíquico é suficiente para que atribuíssemos o conjunto a forças naturais desconhecidas. O contágio não aceita o adjetivo demoníaco, aceita perfeitamente o adjetivo psíquico.
 
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