|
 |
 |
 |
 |
 |
| |
|
 |
| Os Demônios são contagiosos? |
|
|
|
 |
MILAGRES JANSENISTAS? Ainda maior prova de contágio psíquico, para muitos este sim o mais notável caso conhecido da história, aconteceu um século depois do caso de Loudun. Estamos já nos começos do século XVIII e de novo na França, em Paris, no cemitério de São Medardo, ao redor do túmulo do diácono jansenista François.
François de Paris morrera no dia 1º de maio de 1727, numa Quinta-feira, aos 37 anos. Durante as exéquias uma senhora paralítica –doença psicógena por excelência–se acreditou curada. Já no dia seguinte, a tumba estava rodeada de infelizes que suplicavam ao santo herege o lenitivo para seus padecimentos, como em vida lhe suplicavam um pouco de pão. Espalhou-se logo que no seu túmulo se faziam milagres (?), e mais doentes acudiam.
Assim passaram-se quatro anos, quando uma histérica, Aimé Pivert, algumas vezes foi acometida de violentas convulsões, outras ficou rígida durante muito tempo, adivinhou algumas coisas (HIP e Telepatia) e falou algumas palavras em língua estranha (Xenoglossia).
No dia 16 de outubro, a Aimé somou-se uma surda-muda de Versalhes. O padre Bescheranden acertadamente não acreditava que houvesse milagres dentro da heresia jansenista, foi ver..., e atribuiu tudo aos demônios e ele mesmo caiu em convulsões. A partir de então o contágio foi se alastrando a inúmeros histéricos que lá acudiam à procura de curas. Outros em procura de sensações fortes... Chegaram a reunir-se no cemitério, sem contar-se milhares de espectadores, inclusive da alta nobreza, e autoridades, mais de 2.000 endemoninhados com fortes convulsões.
É que o demônio é mais contagioso que qualquer bacilo?
Constituíram grupos de enfermeiros voluntários para ajudar nas emergências. Eram os “Frères Servantes” (Freis Servidores) e as “Dames de la Grace” (Senhoras da Graça), que pertenciam a uma espécie de congregação religiosa chamada “Obra das Convulsões”. É evidente que então, como em seitas de “descarrego”, havia muito interesse político e principalmente econômico...
|
|
De nada adiantou que o arcebispo de Paris proibisse a ida ao cemitério. As ruas adjacentes cada dia estavam mais cheias de pessoas aos gritos e convulsões. Houve alguns suicídios de loucos que se desgarravam as entranhas. Outras pessoas se feriam violentamente batendo as cabeças ou se jogando ao chão. Pediam que se lhes golpeasse para expulsar os demônios que os possuíam. Foi considerado como imitação da flagelação de Cristo. E foi aí quando surgiu a moda de fazer-se crucificar!
Foi famoso o caso de Francisca Charles-Marie de la Condamine, membro da Academia Francesa. Teve oportunidade, na visita que fez ao cemitério em 13 de abril de 1759, de presenciar uma dessas crucificações cruéis. E terminou ela também em grandes convulsões. Dia após dia. Foi chamada “deã dos convulsionários”. A seu pedido, obteve uma crucificação cruenta, com grandes pregos enfiados na carne à força de martelo. Antes fora coroada de espinhos, cingida com cílios de saco áspero, flagelada com correntes... Nem faltou a esponja embebida em vinagre e uma imitação (não perfeita, mas realmente perigosa) de um golpe penetrante de lança!
Sobreviveu. Mas Francisca, pouco depois, morreu ao submeter-se à prova de fogo: o seu aliado Satanás a salvaria! O fogo foi rapidamente fatal.
.
|
 |
|
Multidão acompanhando o “via crucis” da “guria” gaúcha Eliana que vai ser crucificada pelo seu próprio pai. Mas, claro, na presença de um cordeiro (“Cordeiro de Deus” = Jesus-Cristo). Antes o demônio a arranhava..., e continuamente gritava: ”Mata-te, mata-te”. Eliana foi açoitada e teve que permanecer na cruz, com chuva e sol, por três dias, antes da simbólica ressurreição: ver-se livre das garras de Satanás. |
|
|
INTERVENÇÃO GOVERNAMENTAL
O cirurgião Morand assistiu a três crucificações.
E reclamou energicamente perante as autoridades. O Governo mandou fechar o cemitério. Foi em janeiro de 1732, após quase cinco anos de loucura coletiva.
Então um engraçadinho escreveu na porta do cemitério:
“De par le roi, défense à Dieu / de faire miracles en ce lieu”. (Por ordem do rei se proíbe a Deus / fazer milagres neste local).
Por muitos anos, porém, a histeria coletiva se manteve, alhures, diminuindo só pouco a pouco. Foi relativamente lenta a libertação da França desse pesadelo.
Com a continuada perseguição da polícia, diversas seitas de convulsionários, tais como os elisianos, valentistas, agostinianos etc., refugiaram-se nas casas de senhoras da melhor sociedade francesa. Em cidades como Troyes, Corbeil, Montpellier etc. eram protegidos por influentes políticos.
|
|
|
O repetir sons ou palavras sem sentido (glossolalia) passou a chamar-se , então e renasce agora, “dom das línguas”; as convulsões que davam origem a rigidez cadavérica duradoura chamaram então, e renasce agora, “repouso no Espírito”. Ficavam com os olhos desmesuradamente abertos e imóveis, tanto que muitos chegaram a ficar cegos; alguns não reagiam a pequenas queimaduras (Pirovasia). Etc.
O repetir sons ou palavras sem sentido (glossolalia) passou a chamar-se , então e renasce agora, “dom das línguas”; as convulsões que davam origem a rigidez cadavérica duradoura chamaram então, e renasce agora, “repouso no Espírito”. Ficavam com os olhos desmesuradamente abertos e imóveis, tanto que muitos chegaram a ficar cegos; alguns não reagiam a pequenas queimaduras (Pirovasia). Etc.
CÍRCULO VICIOSO. Na presença de convulsionários, muitas pessoas, aterrorizadas pela idéia de elas também virem a ser possuídas, passam a jejuar e mortificar-se. Com isso ficam mais débeis. E por isso mesmo mais sugestionáveis. Então jejuam mais, sugestionam-se mais...
Como destacou Murisier, a penitência facilita a sugestionabilidade. Em clínica é sabido de longa data que o paciente mais resistente ao hipnotismo é facilmente hipnotizável quando está doente, ou quando se lhe aplica uma sangria...
“As bruxas devem ter manifestações estranhas”, se acreditava. Daí, qualquer pessoa com predisposição à histeria, caía em manifestações estranhas e era considerada bruxa.
Pelo mesmo preconceito, qualquer pessoa com qualquer manifestação mais ou menos esquisita passava a ser considerada bruxa. O ambiente ia ficando cada vez mais denso de bruxas, e em círculo vicioso, de mais fenômenos, de mis bruxas... Naquele ambiente, pessoas com taras psicológicas ou predisposição à loucura podiam chegar às maiores atrocidades. Em 22 de fevereiro de 1680, morria na fogueira a célebre bruxa La Voisin. No curso do processo comprovou-se que a bruxa, aproveitando-se da profissão de parteira, e com a finalidade de fazer feitiços, matara ao redor de 2.000 crianças, das quais se encontraram os restos enterrados no jardim, ou perto de um forno para cremações que tinha na sua própria casa.
|
|
Símbolo de que há diversos disfarces e cultos “ardentes” às forças do mal
|
|
|
|
QUALQUER TESTEMUNHO ERA VÁLIDO. Os exorcistas aceitavam qualquer testemunho. Se esses testemunhos vinham acompanhados de convulsões, a veracidade era então indiscutível.
Ficou famoso o caso do menino Thomas Darling. Num dia de 1556, em Burton (Inglaterra), ele sofreu convulsões. Quando se recuperou acusou uma anciã, de nome Alice Goodevidge. É que noutro dia ficara sem respiração precisamente quando passara perto dela.
O menino passou a sofrer mais convulsões. E a ter visões: apareceram-lhe um gato verde, anjos também verdes e viu como se eleva aos pés da cama um homem envolto em chamas, como se viesse do inferno. Com todas essas convulsões e visões, acendeu-se mais o ódio dos adultos: a velha Alice Goodevide era bruxa!
A anciã foi detida. Posta perante o menino, ele teve um violento ataque convulsivo. E ninguém compreendeu que esse ataque era evidentemente histérico, pois não ia ser precisamente perante os juízes que a velha ia danificar o menino. E se esse ataque era histérico, por que não o seriam também os anteriores, condicionados simplesmente pela presença da coitada velha?
Torturas. E a “prova de fogo”: A bruxa teve de caminhar descalça sobre pranchas candentes. E assim a velha Alice Goodevide confessou!: “tinha pacto com o Diabo. O Diabo aparecia em forma de um cachorro”. E assim foi condenada também a sua filha, que tinha dado ao menino o cachorro, real e inocente, chamado Manny. A anciã morreu no cárcere.
Anos depois, já adulto, Thomas Darling reconheceu ante o arcebispo Harsnett que tudo aquilo fora fantasia de sua infância. Que o lamentava profundamente..
.
|
LENHA AO FOGO. O contagioso ambiente, o generalizado terror aos feiticeiros e poderes demoníacos, o ódio à heresia eram aproveitados e fomentados por motivos interesseiros. Uma mulher era maltratada pelo marido? Havia um meio fácil de ver-se livre dele: “Uma mulher católica deixará de estar submetida ao cumprimento de seus deveres de esposa para com o marido convertido à heresia”.
Evidentemente o inverso também era válido: qualquer homem que quisesse ir com outra, bastava acusar a esposa de qualquer prática mágica...
Na enumeração de interesses por trás do ambiente de bruxaria, é impossível ser completo. Todas as paixões humanas se disfarçavam de demoníacas, e assim sopravam o fogo... E o fogo se alastrava. O contágio psíquico por sua vez facilita a multiplicação de fenômenos, em círculo vicioso.
PARA PESSOAS ESCLARECIDAS era manifestamente absurdo aceitar que o Espírito Santo e os anjos atormentassem pessoas (seria blasfêmia afirmar isso!). Não há espíritos de mortos: existem homens vivos e homens ressuscitados (como demonstramos em outros densos artigos). Mesmo os diabos é absurdo que fossem de repente autorizados por Deus e caíssem em debandada sobre os mortais.
|
|
Conclusão: Volta o Diabo, o seu império
|
|
|
|
Os fenômenos eram mais freqüentes com mulheres. Principalmente na puberdade e adolescência e após a menopausa. Os demônios têm preferência pelas idades críticas femininas?
As possessões começavam, quando as pessoas (é sabido são muitos os predispostos, impressionáveis e histéricos) presenciavam cenas tão carregadas de emotividade. Em pessoas propensas à epilepsia e histeria, era o impressionante ambiente do cemitério e filiais que desencadeava, então como hoje em determinados ambientes, os ataques demoníacos.
Enfim... O demônio não se encaixa nos fatos. Está sobrando (do latim “superstitit”, donde proceda o termo “superstição”).
RECONHECIDO JUDICIALMENTE. Na atual jurisprudência de quase todos os países, insiste-se em que os magistrados ou juizes não devem aceitar o testemunho de crianças, nem de mitômanos, fantasiosos, crédulos, supersticiosos... como os loucos, saem facilmente da realidade.
Em 1459 acusou-se de bruxaria aos mais ricos proprietários de terras em Arras, ducado de Borgonha. Celebrariam rituais de cultos a Satã, assistiriam a sabbats ou reuniões demoníacas, fariam feitiços, pertenceriam à seita dos valdenses. Tanto grassou a calúnia, que do nome desta seita surgiu a palavra “vauderie” como sinônimo até hoje de bruxaria.
Foi assim que o duque de Borgonha ganhou as ricas propriedades de Arras. Mas o êxito econômico da intriga durou pouco. O Parlamento de França anulou as sentenças e o duque teve de devolver e indenizar os familiares dos mortos. Quem, porém, devolveria a vida aos queimados e enforcados como bruxos? O Parlamento oficialmente reconheceu que os dirigentes de muitas seitas, por interesses econômicos, alentam a formação de um ambiente saturado de superstição.
Precisamente por verificar que por detrás das acusações de bruxaria estava com freqüência a avareza econômica, o imperador Fernando II proibiu a confiscação dos bens dos condenados em processos de bruxaria.
NO CLAP. Hoje em alguns países os doentes psicológicos e parapsicológicos são atendidos em clínicas especializadas. No Brasil, porém, ainda não se reconheceram na Previdência Social. “Ou se trata de doenças orgânicas e, portanto, do âmbito do médico e do psiquiatra, ou não existe doença”, afirmam. Na superstição tão difundida no Brasil, inclusive alguns médicos enviaram tais pessoas ao Espiritismo ou às seitas de “descarrego”. Ou desumanamente são internados entre os loucos! Como nas civilizações primitivas. Como durante os atrasados séculos de bruxaria.
À nossa clínica vieram e vem continuamente pessoas que se dizem “enfeitiçadas”, “com encostos de espíritos”, “endemoninhadas”... São pura e simplesmente doentes, angustiados, reprimidos... Antes foram de médico em médico. Inutilmente: não há doença orgânica. Piorou. Não tivessem vindo, por fim, ao CLAP e teriam chegado a ser médiuns ou endemoninhados muito famosos. Alguns já eram famosos e contagiavam a muitos.
Não há por que insistir. A proliferação de endemoninhados e de bruxos é contágio psíquico, e há interesses bem naturais em cultivá-lo...
Exatamente ontem como hoje: “Volta o Diabo” (Ver o artigo sob este título). |
| |
|
|
| |
|
|
|
 |
 |
 |
|
|