Dermografia
“AS MARCAS DO DIABO”. Além de pontos insensíveis, o sentido preferencial e exato em que se entendia a expressão “stigmata diaboli” era o de marca, sinal, mancha... no corpo. Verdadeira ou falsa dermografia; etimologicamente gravação na pele.

Evidentemente que há diversidade de marcas no corpo de qualquer um, e também é certo que a rigorosidade dos inquisidores na interpretação dessas marcas variava muito.

Mas se o estigma era realmente singular, misterioso, era considerado como uma das mais claras provas de pacto com o Diabo. Os bruxos estariam marcados como se fossem gado. A marca seria impressa numa orgia sexual, com íncubos (demônios machos, posição acima) e súcubos (demônios fêmeas, por baixo). Acreditavam que alguns destes demônios, por serem anormais, não queriam chupar as glândulas mamárias das suas parceiras. Às vezes, aliás, preferiam parceiros... Por isso chupavam em outras partes do corpo, e ficavam as marcas: Estigmas do Diabo. Tais eram as explicações no famoso manual dos inquisidores: “Malleus Maleficarum” (“Martelo de Maléficos”: bruxos e feiticeiros).


É inegável que em algumas bruxas ou bruxos, os estigmas eram realmente perfeitos: notavam-se as incisões dos dentes do demônio (?!), outras vezes eram claramente como os mamilos.

Os demonófilos (= amigos do demônio. Costumo chamar assim, com ironia, os defensores da intervenção dos demônios), acreditavam na época da caça às bruxas, que se os demônios queriam enganar aos inquisidores, mas sem renunciar a que os próprios demônios pudessem encontrar facilmente o mamilo “extra”, então este ficava disfarçado sob um estigma em forma de pêssego, ou de uva, ou de... “às vezes é a imagem de uma lebre; outras, uma pata de sapo; às vezes uma aranha, um cachorrinho, uma lorpa”.

“A SEMENTE DO DIABO”. Boguet conta, entre outras, a história da mulher que foi procurada sexualmente pelo marido disfarçado com uma máscara de demônio. Tão apavorada ficou na sua superstição e tão angustiada durante toda a gravidez, que deu à luz um menino no qual, sem sombra de dúvida, se distinguiam traços marcantes da máscara que o marido usara.

Neste caso parece que se inspirou “O Bebê de Rosemary”. O filme pôs em atualidade o velho tema dos “filhos do demônio”. No filme, bastante diferente do livro de Boguet, a trama está muito bem levada pelo amador de ocultismo e satanismo, Polanski. Apresenta Rosemary tendo relações com o marido. Ela, fortemente sugestionada por ter sido escolhida na seita satânica para esposa de Lúcifer (?!), sofre reiteradas alucinações: vê o marido, vê o demônio.... Ficou com tão emotiva dúvida: nove meses desesperadores. A seita satânica (por ST: sugestão telepática), incute nela que é a escolhida de Satanás. Ela, cada dia que passa, capta mais (por telepatia), o desejo (telebulia) dos satanistas. Já completamente histérica, procura um psiquiatra, que a entrega ao chefe da seita! O satanista está convencido de que ela está gerando um filho do Diabo... No clímax do filme, quando ela vai ver pela primeira vez seu bebê, o grito de desespero. O bebê tinha não sabemos que estigmas, prova (?!) da filiação diabólica.

Entre tantos casos comprovados pelo CLAP, uma menina de Louveira- SP. Nasceu e conserva por toda a vida a dermografia de um morango que sua mãe, gestante, ansiava de noite...
Do ponto de vista fisiológico afirma-se que o feto constitui quase uma unidade com a mãe. O influxo psíquico da gestante no feto foi inúmeras vezes comprovado.

Até em animais, como o caso muito conhecido em Parapsicologia, da cadela... Antes dela, a gata durante a gravidez recebera especiais carinhos dos donos de ambas. Depois veio a gravidez da cadela, e os carinhos especiais, e deu a luz, claro, cachorrinhos, mas que tinham notável parecido com os gatinhos.

Também muito célebre outra gata que deu à luz filhotes com marcas representando números e estrelas: Estavam pintados num saco, atrás do qual se escondia o rato que a gata, grávida, sempre perseguia.

Inclusive a superstição levou muitas matronas romanas a ficarem horas inteiras, nove meses seguidos, contemplando a estátua de Vênus e de Apolo, na esperança de que, por generosidade desses deuses, o feto nasceria tão bonita como Vênus se era menina, ou tão aposto como Apolo se era menino. É claro que a maior parte das gestantes perderem olimpicamente seu tempo, mas a superstição não se teria mantido por vários séculos e em tantos lugares se não tivesse algum fundamento: a possibilidade do influxo da imaginação emotiva da mãe sobre o feto.


Nem costuma a dermografia sobre o feto ser tão curiosa como a daquela senhora nordestina que, participando entusiasticamente na campanha pela presidência de Jânio Quadros, deu à luz uma menina com uma marca representando a vassoura na testa! (É sabido que a vassoura era o “logotipo” na campanha de Jânio: varreria toda desonestidade).

Outro exemplo é o mito mantido até hoje de que todas as gestantes têm que ver satisfeitos seus caprichos de determinados manjares, para que o filho não nasça com “o desejo”, a marca por exemplo da maçã que a mãe tanto desejou, e o marido não quis levantar-se e sair a compra-la naquelas horas da noite... A dermografia não é tão freqüente!
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EVIDENTEMENTE NATURAL. Não se deve atribuir ao demônio o que, inclusive sobradamente, pode ser explicado naturalmente. Era ignorância de épocas passadas. Triste que ainda se invoquem esses tão descabidos “argumentos”...

Muito divulgado o caso de uma religiosa considerada pelo inquisidor dominicano Frei Ludovico Mancini como indubitavelmente endemoninhada. Num livro publicado em Roma pelos editores pontifícios. Destacaram, ponderativa e insistentemente, que a Irmã Saint-Fleuret do Orfanato de Grèzes, perto de Paris, tinha “estigmas do Diabo”!

Foi em 1902 que toda a França, pelos jornais, se espantou com o caso da Irmã Saint-Fleuret, mas o fato vinha se alastrando havia 11 anos.

Mas já então os médicos viam que todo o conjunto era claramente resultado dos problemas psicológicos da freira e, por isso, mesmo perante outros fenômenos parapsicológicos, se atreviam a diagnosticar que a Ir. Saint-Fleuret “é um objeto para a observação patológica realmente maravilhoso”.

Perante os estigmas, os médicos já então não se desconcertaram: “Esta doença não é senão uma variação do histerismo. Teve como pródromo uma predisposição natural que se transformou em aguda pela influência do ambiente, mas não tem nada de sobrenatural.

É o resultado de uma verdadeira auto sugestão. Nas suas crises, parece-lhe que o demônio a morde ou queima nesta ou naquela parte do corpo, e a auto-sugestão é tão forte, que apenas passada a crise, se encontra no lugar do corpo onde a freira sofria tanto, ou uma verdadeira queimadura sobre a pele, ou a marca de uma mordida dada então, com todos os dentes ou com só alguns”.

-- “É o resultado de uma verdadeira auto-sugestão”. Hoje grande parte da psicopatologia se fundamenta na somatização: os conflitos psicológicos expressos no corpo.

-- “É um desvio da histeria”. A definição é precisamente essa: representação de uma doença ou doença por representação.

Neste caso, no corpo, dermograficamente. Repercussão ou influência do psiquismo, da imaginação emotiva, sobre o organismo.

A Ir. Saint-Fleuret “tinha” que sofrer, porque se oferecera com voto como vítima de expiação pelos pecados dos outros. “A infinita bondade vai-me fazer sofrer? Portanto tem que ser o demônio”! E assim, “Satanás” dizia ao exorcista: “Por que me atormentas? Esta religiosa fez voto de ser vítima e Deus me permitiu fazê-la sofrer”.

-- O demônio orando a Deus (“me permitiu”) e prestando-se com gosto a ser instrumento da Divina Providência! Demônio bonzinho!

 
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