Os Endemoninhados perante a ciência

Sem entrar ainda nos fenômenos propriamente parapsicológicos.
Na época da bruxaria e caça às bruxas, toda e qualquer doença um tanto misteriosa e todas as aberrações, às quais conduzem os instintos exacerbados, foram consideradas demoníacas.



O UNGÜENTO.
Os adoradores de Satã, no pacto que pretendiam haver realizado, se comprometiam a ir 4 vezes por ano ao grande Sabbat (ou Aquelarre), uma espécie de Assembléia Geral de Bruxos e Demônios. Podiam-se fazer os pequenos Sabbats e reuniões particulares duas e até três vezes por semana.

Para poder ir ao Sabbat, era indispensável untar ao menos as orelhas, o pescoço, os ombros, as axilas e as plantas dos pés.

Existia uma infinidade de fórmulas do ungüento diabólico. “Muito secretas”, mas todo mundo podia conhecê-las; embora só os mais ricos, influentes e entusiastas pudessem conseguir as melhores e mais completas fórmulas, pois eram “produtos de longínquas terras”.

Eis a fórmula de um dos ungüentos, mas as variações podem ser ilimitadas: “Extrato de ópio, 50g; de betal. 30; de zinco em rama, 5g; de beladona, 15g; de cânhamo índio, 250g; de belenho negro, 15g; de cicuta, 15g e de cantárida, 5g; ainda 3g de aenantol e quanto seja necessário de goma de tragacanto e de açúcar para formar um ungüento líquido e viscoso”.

Havia também ungüentos à base de “semente de girassol triturada, flor moída de papoula e de cânhamo; haxixe, eleboro, digital, estramônio, rapôncio, erva amora, ópio e outras plantas venenosas. Tudo sustentado em manteiga líquida e viscosa de porco”.


“Manifestar forças superiores à natureza...” Alguma vez uma jovem “endemoninhada” manifestou tanta força e resistência como Tom Owen, de Alabama? Com os músculos do abdome resiste ao peso de uma caminhonete com vinte crianças. Num show de beneficência: oh, demônio bonzinho!

As bruxas acreditavam que essas plantas tinham um poder mágico.

Às vezes as drogas eram ingeridas. O cheiro podia também ter efeitos narcotizantes. Os ungüentos esfregados vigorosamente sobre a pele terminavam por chegar à corrente sangüínea. As bruxas e satanistas (e macumbeiros etc.), geralmente já fracos de mente, além dos efeitos de auto-sugestão e do medo pela experiência que estavam realizando, sofriam os efeitos das drogas. Não sabiam antigamente que se tratava de efeitos das drogas, nem sabiam quais eram os efeitos de cada droga. Hoje é sabido que a atropina da beladona provoca depressão e inclusive mania persecutória (atribuída aos demônios e maus espíritos!), sonhos e alucinações terrificantes (consideradas reais aparições).

O extrato de raízes de certas plantas lobeliáceas provoca ânsia de fugir (ir ao Sabbat). O estramônio provoca sonhos nos quais se sentem torturados... A mandrágora contém escopolamina, substância venenosa que administrada em doses muito pequenas paralisa o sistema nervoso central provocando alucinações de tipo romântico e mágico junto com uma progressiva perda da autodeterminação consciente –hoje se usa como soro da verdade.


O belenho e outras plantas da família dos solanáceos contêm um alcalóide que dilata as pupilas (até ficarem cegos se a dilatação é muito freqüente), também provoca alucinações e tem efeitos soporíferos (repouso dos demônios?), além de tornar insensíveis certas partes do corpo inclusive ao fogo (Pirovásia em Parapsicologia). A “datura stramonium” faz que a pessoa dance freneticamente.

UMA EXPERIÊNCIA DE ONTEM. Mesmo antigamente havia pessoas sensatas que podiam demonstrar que a maioria das façanhas e esses sabbats ou conciliábulos com os demônios se realizavam só na imaginação.

Século XIV. Uma mulher pretendia ganhar as boas graças do prestigioso pároco: “Muito deveria o senhor me querer, pois lhe salvei a vida. Estando com as boas damas (nome que se dava às bruxas voando ao aquelarre), à meia-noite entramos em sua casa com brandões. O senhor estava dormindo nu. Vendo eu o senhor assim, cobri-o para que nossas damas não vissem sua nudez; pois se o tivessem visto daquela forma, tê-lo-iam açoitado até o fazer morrer com os golpes”.

O padre então a fez entrar na sacristia e com a haste da cruz processional ameaçou dar-lhe golpes ao mesmo tempo em que dizia: “Saia daqui e voe, senhora bruxa, dado que nem porta nem ferrolho são capazes de detê-la”. Como, evidentemente, a bruxa não conseguiu sair para se esquivar dos golpes, o vigário disse-lhe então: “Bem se vê que as senhoras são loucas, pois acreditam nos seus delírios insensatos”. E a deixou ir.

Tão difundida estava em Europa a mentalidade demonológica, que assim era imaginado o “Novo Mundo” pelos descobridores

UMA EXPERIÊNCIA DE HOJE. Uma jovem que se ofereceu para experimentar os efeitos da beladona descreve-os assim: Segundo o combinado “friccionei com o ungüento, de noite, várias vezes, a região cardial. Esperei, mas como após transcorridos vinte minutos não houvesse indícios de que o ungüento começasse a sutir efeito, apliquei o resto a outras partes do corpo com o fim de oferecer ao veneno uma maior superfície de ataque”.

“Teriam passado alguns minutos quando me deu uma forte tontura. Qualquer movimento acentuava o mal-estar até se fazer insuportável. Então permaneci quieta para não exacerbar a sensação. Apoderou-se de mim uma tensão desagradável. Em vão me esforçava por governar meus pensamentos. Quando fechei os olhos, comecei a desfalecer: primeiro lentamente, logo cada vez mais velozmente. Éra-me impossível abrir os olhos com rapidez e em seguida comecei a sentir-me desvalida e sem forças. Meus membros não reagiam já com a rapidez de costume”.

“Repentinamente o teto da habitação começou a mover-se formando ondulações e a aproximar-se de mim como se fosse a tampa de um grande ataúde. Então senti os joelhos extraordinariamente depressivos da beladona. Os objetos mais inofensivos causavam-me uma sensação opressiva, de pesar. Dos marcos dos quadros assomavam rostos perversos, frios, que se moviam velhacamente com misterioso silêncio”.

“Tive de renunciar inclusive a pensar com claridade. A faculdade de crítica começou a falhar-me perante as alucinações, pois a impressão era forte demais, demasiado incompreensível, e as imagens sucediam-se em ritmo acelerado... Fantasmas espantosos se agitavam no meu aposento. Da escuridão, esforçavam-se por sair rostos, imprecisos no começo, mas que logo tomavam forma (...). Estendi a mão para agarrar uma sombra que se inclinava sobre mim. No preciso instante, essa sombra era substituída por outra”.

“A luz da rua penetrava na minha habitação em forma de raios semelhantes a aranhas enormes que corressem pelas paredes. Sentindo nojo e horror, dei um pulo; mas uma profunda lassitude obrigou-me a sentar-me. Lentamente começou a invadir-me uma negra melancolia que parecia asfixiar-me. Como num filme projetado a velocidade mil vezes superior à normal, descorriam imagens ante mim. As impressões confundiam-se umas com outras, e a ilação se perdia”.

“Deitei-me de novo e distendi meus ombros com o propósito de renunciar a toda oposição ao engano dos sentidos. Em seguida experimentei um câmbio radical. O grau de tensão, que se fizera inagüentável, cedia por momentos, e inclusive foi se apoderando de mim uma sensação de alegria”.

“Uma onda gigantesca empurrou-me repentinamente para o alto para, depois, depositar-me suavemente sobre a superfície de um mar de reflexos verdosos. Na realidade eu me movimentava a um ritmo determinado, com a sensação de flutuar no ar”.

“A depressão tornou a se manifestar com uma lassitude que ia aumentando. O tempo transcorria com a lentidão do caracol. Na minha tensão insuportável os minutos pareciam durar uma eternidade. Quando começou a diminuir, fui ficando adormecida. Não acordei até vinte e quatro horas depois, e então tive a impressão de ter nascido a uma nova vida”.

Recolhendo casos históricos, embora geralmente exagerando-os e juntando-os todos na mesma pessoa, o que não pode ser real, William Peter Blatty na sua novela e filme “O exorcista” apresenta uma cena de sansonismo: a menina “endemoninhada” teria derrubado ao mesmo tempo os apavorados Padres Karras e Merrin.

ESPECIALMENTE ORGIAS SEXUAIS. Passou à história como talvez o mais elegante, um grupo de satanistas ingleses do século XVIII. Ao redor de 1740, num ambiente hipocritamente puritano. Sir Francis Dashwood fundava em West Wycombe, uns 60km a oeste de Londres, os “Cavaleiros de São Francisco”. Sob tão piedoso nome “os monges de Medmenham”, se reuniam na Abadia junto ao Tâmisa, para as mais descabidas orgias sexuais (muito reais) e para conspirações mágico- diabólicas (poderes muito irreais).

Posteriormente tiveram de transladar-se. Lord Sandwich assustado por um mandril que pulou sobre suas costas, saiu da Abadia correndo, e gritava: “Perdoe-me, senhor Diabo, porque nunca fui tão mau como pretendia”.

Houve quem ouviu. A história se espalhou. Surgiram outras delações. A oposição aproveitou o escândalo, no Parlamento. E os satanistas, transladaram-se a umas grutas que Sir Dashwood mandou escavar numa antiga pedreira. Chamaram-se então “Hell Fire Club” (Clube do Fogo do Inferno). Ao Clube diabólico pertenciam membros do Parlamento, poetas e pintores de prestígio, professores eruditos, ricos comerciantes.


Os homens vestiam-se como monges, as mulheres como as freiras da época. Missa Negra entre canções despudoradas, burla ao papa e ao clero católico, enormes quantidades de vinho tinto, feitiçaria contra os inimigos políticos e comerciais, sexo desregrado.

Hoje as grutas de “Hell Fire Club” em West Wycombe estão abertas aos turistas. Nas suas espaçosas e elegantes dependências acortinadas como estavam então, hoje bonitas imagens em cera representam as cenas de bruxaria e sugerem as de sexo e Missa Negra. Os guias turísticos de hoje asseguram como comprovado que lá eram freqüentemente recebidos Jorge III e Benjamim Franklin. Outros nomes famosos que se citam são John Montagu, primeiro lorde do Almirantado; John Wilkes, membro do Parlamento e Prefeito de Londres; William Hogarth, pintor destacado; Paul Whitehead, poeta laureado etc. O próprio fundador e sacerdote satânico, Sir Francis Dahwood, foi Administrador Geral de Correios e chegou a Ministro da Fazenda.

E HOJE IDÊNTICO AO TRADICIONAL. William Peter Blatty (o autor da novela e filme “O exorcista”) após ter lido, segundo afirma, praticamente tudo o que se escreveu em inglês sobre o tema, descreve o sabbat ou reunião dos satanistas modernos, com cores vivas.
Reuniões repugnantes. É a descrição de um novelista. Mas, como ele mesmo afirma, se fundamenta na triste realidade. A tais excessos chega a insensatez e loucura localizada (Parafrenia) de pessoas que em outros aspectos podem ser perfeitamente sensatas.
 
 
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