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| Os endemoninhados perante a ciência |
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UMA SUPERIORA ALUCINADA. No célebre caso de Loudun. A madre Jeanne des Anges, pelo seu físico, não inspirava muitas simpatias. Tinha desde criança um ombro e os quadris deslocados.
Uma das grandes preocupações da sua mãe fora sempre esconder a filha defeituosa. Tanto a baronesa procurava exibir suas outras filhas, como ocultar Jeanne. Vestia-a bem simplesmente. Proibia-lhe de se apresentar aos visitantes. Esta discriminação revoltou Jeanne, e explica em grande parte seu ulterior desejo doentio de chamar a atenção.
Mas Jeanne era de grande cultura: “Aplicava-me à leitura de todo tipo de livros”, diz ela mesma na autobiografia, “não por um desejo do meu progresso espiritual, mas somente para aparecer como moça inteligente e de boa conversa e para me tornar capaz de sobrepor-me às outras em qualquer espécie de companhia”.
Pertencia à alta sociedade: seu pai era Louis de Belcier, barão de Cozes; a mãe, Charlotte de Gourmard, era a herdeira da ilustre casa dos Chiles. Vivera no esplendor. Sua família era das mais consideradas em Saintonge. Como seus quinze irmãos, a Jeanne era também muito inteligente e educada, em artes e no trato com as pessoas. Foi assim que, quando freira, veio a exercer grande influência e rapidamente alcançou o priorado.
Jeanne não fora ao convento por própria vontade. Foi sempre esse o desejo dos seus pais. Quando Jeanne tinha só cinco anos, após o acidente que a aleijara, foi enviada para junto de uma tia, religiosa beneditina, à abadia real de Saintes. Lá passou muito bem os primeiros anos de infância, mas quando começava a puberdade, morreu sua tia. E outra parente, também freira beneditina, lhe fez a vida impossível. Algum tempo depois, Jeanne pediu ao pai que a retirasse do convento. A mãe, porém, continuou querendo enviá-la de novo ao claustro. Quando por fim apareceu um pretendente, a mãe se opôs resolutamente. Jeanne ficou tão revoltada e tão frustada que decidiu fazer-se religiosa. Tinha 17 anos. Manifestamente: uma decepção amorosa e revolta contra a mãe não é vocação religiosa. Compreende-se assim que “não havia tempo que eu achasse mais longo, do que aquele que a regra nos obriga a passar em oração”. Compreende-se que preenchesse o tempo em fantasias, e em fantasias de frustada: sexualidade.
Até que o inconsciente estourou. Na noite de 21 para 22 de setembro de 1632, Jeanne, então com 27 anos, vê aparecer o fantasma do antigo confessor, Pe. Moussaut, recentemente falecido. O medo, sem dúvida, provocara a alucinação. E o contágio psíquico: a que era então superiora, madre De Colombiers, assim como também a irmã Marta de Santa Mônica, esta terminando um retiro espiritual, também vêem o fantasma. No dia seguinte, vêem uma bola preta atravessando o refeitório. No dia 27 de setembro, o fantasma tem forma de homem, mas só o vêem de costas.
Durante a noite a madre Jeanne des Anges via fantasmas deslizando pelo dormitório, descobrindo as freiras, acariciando-as, e depois possuindo-as sexualmente. Acreditava que eram demônios fantasiados com formas de homens.
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DEMÔNIOS? Na mesma época dos acontecimentos surgiu a polêmica. Muitos compreendiam que eram projeções do instinto sexual reprimido em mulheres que foram obrigadas a serem freiras...
Mas não querendo reconhecê-lo, o inconsciente da madre Jeanne des Anges começou a disfarçar sentindo que os demônios com que sonhava nas suas fantasias sexuais eram fétidos. Agarravam a priora com mais paixão do que fúria, despiam-na e... Mas logo vinha a censura: ela não tinha culpa nenhuma, os demônios a atavam às barras da cama.
Madre Jeanne des Anges escreve: “Grandier se servia dos demônios para excitar em mim o amor por ele. Eles me sustavam desejos de vê-lo e de conversar com ele. Muitas de nossas irmãs estavam com os mesmos sentimentos (...) Quando não o via, ardia de amor por ele, e quando ele se apresentava a mim à noite, em sonhos, e queria seduzir-me, Deus me dava uma grande aversão por sua pessoa. Assim todos os meus sentimentos mudavam. Eu o odiava mais do que ao Diabo”.
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O elegante padre Grandier. Desenho feito a partir de registros da Inquisição
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Tudo se originou da repressão sexual e no fascínio que provocava naquelas mulheres o jovem padre Grandier, que nem sequer teve qualquer relacionamento particular com a madre Jeanne, então superiora, ou com alguma das freiras endemoninhadas.
O arcebispo de Bordeaux enviou seu médico, Dr. Sourdis, ao convento de Loudun. Após ter examinado física e psiquicamente as freiras, conclui que de nenhuma maneira estavam endemoninhadas. Todo o problema era psicológico. Num segundo exame, o médico explicita mais em que consistia esse problema psicológico: "As freiras estão constantemente perseguidas por tentações impuras”.
O arcebispo por duas vezes mandou suspender os exorcismos, e que as freiras não saíssem do convento: o contágio psíquico nessas duas ocasiões se mitigou, os demônios se acalmaram!
Até que se afrouxou o cumprimento da ordem arcebispal e os exorcistas voltaram a incutir idéias demonológicas nas sugestionáveis e aterradas freiras...
Assim durante 25 anos!
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pesar de protestar inocência, aliás evidente, o padre Urbano Grandier terminou na fogueira para expulsar os demônios com os quais, segundo todos, ele teria feito pacto. Desenho da época (1634)
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SIMPLESMENTE ALIENADOS. Como os antigos, também os “primitivos modernos”, pois o primitivismo independe da época, consideravam e consideram a loucura e mesmo outros distúrbios mentais menos graves, como se fosse uma ingerência de deuses inferiores, demônios ou espíritos de mortos. Para a ciência, porém, trata-se de doenças suscetíveis de ser especificadas e determináveis nas suas causas naturais.
“Alienados”. Tal é o caso do padre Surin, cuja história lamentável tem suscitado tantos comentários. Este exorcista das possessas de Loudun escreve: “Estou em perpétua conversa com os diabos, tive diferentes sortes que seria demasiado longo descrever. Tanto que, há três meses e meio, jamais estou sem um diabo em exercício perto de mim”...
-- No fundo esta mania persecutória se identifica com notável megalomania: acha-se um coitado, mas um coitado sumamente importante até o ponto de que os demônios não podem deixá-lo nem um dia sequer.
“O demônio passa do corpo da pessoa possuída e vem ao meu, me derruba, e me atravessa visivelmente durante horas como um energúmeno”.
-- Mas o prodigioso padre sai quase incólume dos ataques corporais desse energúmeno demoníaco!
“ O Diabo me disse: ‘Te despojarei de tudo e terás necessidade de que a fé te sustenha, te farei virar insensato`”
-- O piedoso Diabo incentiva a apoiar-se na fé! Em todo caso, “o pai da mentira” diz uma grande verdade: o Pe. Surin ficara insensato.
“Assim, estou obrigado, para conservar um pouco de capacidade mental, a manter freqüentemente o Santo Sacramento sobre a cabeça (quem visse essa cena não acreditaria em muita capacidade mental), servindo-me da chave de Davi (!?) para abrir minha memória!”.
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“Bem se vê que são loucas, pois acreditam em seus delírios insensatos”, como demonstrou o pároco à “boa dama” (ou bruxas. E endemoninhados, médiuns...)
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ARIE-THÉRESE NOBLET. O caso é importante porque sendo relativamente recente pôde ser analisado pelos primeiros especialistas modernos.
A irmã Marie-Thérèse via o demônio freqüentemente em figura de animais: por exemplo, na sua viagem à Papuásia antes de sair da França, ela viu sobre uma ponte o demônio em forma de gorila. Nos dias seguintes, o gorila volta e a ataca.
Uma tarde, tendo descido com outras duas irmãs a enxotar três cavalos do cercado do convento, um “quarto cavalo” (?), de olhos flamejantes, lança-se sobre ela violentamente, derruba-a e pisoteia.
Uma noite, Satã arroja Marie-Thérèse embaixo da cama e a golpeia cruelmente; puxando-a pelos cabelos, arrasta-a pelo dormitório; depois, voltando ao cubículo, coloca-lhe um joelho sobre o peito e ensaia, redobrando os golpes, obter promessa de obediência a ele, Satã. Nos dois dias seguintes, Satanás continua a “tortura de três harpias diabólicas”.
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Lúcifer leva Marie-Thérèse a lugares infames, de desenfreio sexual, tentando sua vontade com sugestões, imagens, palavras... Numa oportunidade em que Satanás a teria levado a um desses maus lugares, “faz-lhe ver uma pessoa que lhe era muito querida, tomando parte nesses horrores, ao tempo que blasfemava e zombava contra os votos religiosos".
Não tiveram dúvidas os padres: “Marie-Thérèse está endemoninhada”. E começaram os exorcismos...
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