Os endemoninhados perante a ciência
 

Na realidade, graças aos dados concretos analisados por um psiquiatra, por um psicólogo e por um neurologista, é manifesto que todo o caso não passava de alucinações histéricas, dramatizada com brilhantes cores demonopáticas:

-- É atacada por um enorme gorila, mas ela –quanta força!– consegue sair viva e até quase ilesa de “um tríplice ataque” em que é “golpeada rudemente”.

-- Aquele quarto cavalo “era desconhecido no bairro” e só a Marie-Thérèse o via. O cavalo a pisoteou, mas ela não se machucou!

-- Ela vê o gorila, e “se admira de que as pessoas ao redor não o vejam”!

-- Marie-Thérèse negava drasticamente todas as realidades do seu instinto sexual, sem sublima-lo. Mas tal negação não podia eliminar a realidade, e os instintos explodiram sob a responsabilidade do Diabo: Lúcifer, que “rodeado por seus subordinados era uma beleza deslumbrante (...) freqüentemente exerce sobre mim as piores sevívias”.

-- Ela é tentada, atacada sexualmente, também suas colegas indígenas: É que os homens desejados por elas transformar-se-iam em pervertidos!


-- Antes dos exorcismos, o Maligno a arrancara do canapé onde repousava e a arrojou violentamente sobre o leito; mas agora durante uns exorcismos ela vê os demônios aos seus pés, é ela que flagela a Satanás, e inclusive põe o pé sobre o pescoço do Maligno. Os assistentes não conseguem ver mais que gestos incompreensíveis de Marie-Thérèse.

-- Quando ela escreve ao seu exorcista, é “o demônio que lhe arranca, esfrega e rasga a carta”. As testemunhas eventuais só vêm a própria freira fazendo isso...

-- O demônio empurra, arrasta a irmã Marie-Thérèse pelo dormitório das irmãs papuias, mas nenhuma acorda! De manhã nenhum sinal. Só ela deitada no chão ao pé da cama. Perfeitamente vestida com a camisola, bem abrigadinha com suas cobertas de lã embaixo e sobre ela. O cubículo inclusive impregnado de água de colônia.

E assim, o diagnóstico de alucinações e histeria poderíamos reforça-lo com inúmeros acontecimentos da vida de Marie-Thérèse.


A FREIRA. O padre Jean Lhermite, também excelente parapsicólogo, estudou pormenorizadamente o caso de uma religiosa que na vida consciente “não manifestava nenhum desequilíbrio psíquico. Modesta, piedosa, de são juízo (...), aquela irmã não apresentava nem o mínimo traço que fizesse pensar na mitomania ou na possessão”. E não obstante, às vezes, mostrava-se profundamente mitômana. Dizia, fazia, via, procedia como vítima de toda classe de atos diabólicos. Todos, e ela mesma, acreditavam-na endemoninhada. Era tal a sua habilidade que ninguém, nem ela mesma conscientemente, suspeitaria que tudo era fantasia com as mais desvergonhadas mentiras e truques claríssimos.

O PADRE. O padre Staehlin, S.J. (“Societatis Jesu”, da Companhia de Jesus, jesuíta), que foi professor meu, foi humildemente consultado por outro sacerdote sobre o fenômeno estranho de que se considerava vítima. Algumas noites, estando já deitado e ainda com a luz acesa, lhe aparecia um demônio. Em forma de horrível gato. Não havia gato naquela casa de jesuítas. O demônio-gato pulava em cima do padre, arranhava-o dolorosamente, e depois desaparecia misteriosamente, portas e janelas fechadas.

A vigilância e observações posteriores solicitadas pelo padre José Maria Staehlin demonstraram que era o mesmo padre que se arranhava, vítima da alucinação.


Representação do que seriam os demônios íncubos

 

A NOVIÇA. Uma noviça de rigorosa clausura queixava-se de que todas as noites sofria os ataques de um demônio em forma de orangotango. Comprovou-se que os sinais de dentadas apareciam só nas partes do corpo que ela podia alcançar e morder-se e que as marcas correspondiam exatamente à dentadura, algo irregular, da noviça.

A CAMPONESA. Mais misterioso parecia o caso de uma camponesa, de noite, sempre que o marido estava fora de casa, sentia-se atacada e mordida por um demônio invisível. Mas as marcas das horríveis mordidas eram bem visíveis. Em pontos inacessíveis a seus próprios dentes! E as marcas correspondiam a uma dentadura bem maior que a dela. Não podia ser nenhuma de suas quatro meninas, pequenas, nem a babá de 14 anos. Não havia dúvidas: era o demônio! Só algum tempo depois se descobriu uma ratoeira. As marcas das “dentadas” correspondiam exatamente às marcas da ratoeira.

HISTERIA E MITOMANIA.
Em todos esses casos era indiscutível a sinceridade das vítimas. Atormentavam-se a si mesma sem sabe-lo conscientemente. O desmascaramento das fraudes inconscientes bastou para acabar com aqueles “ataques demoníacos”.

A pessoa aparentemente mais honesta, equilibrada e mesmo a mais santa, pode ser grande mitômana. E agir em conseqüência habilmente. A santidade e mesmo a equanimidade e equilíbrio são atitudes conscientes, a mitomania surge do inconsciente. Como escreve o grande parapsicólogo padre Reginald Omez, O.P. (Ordem dos Pregadores), “todas as virtudes morais rigorosamente constatadas não permitem excluir a fabulação histérica”, os truques irresponsáveis, as mentiras mais desavergonhadas, as alucinações autocompensadoras..., quando em estados alterados de consciência.

SEXO ESPECIALMENTE. Não concordo com o exagero exclusivista e generalizante de Sigmund Freud, que reduz toda a conduta humana ao estímulo sexual. Até nas criancinhas: o absurdo complexo de Édipo. Se existisse realmente tal complexo universal, todos os loucos, que não têm censura psicológica, abusariam sexualmente da própria mãe...

Mas não é possível discrepar em que muito freqüentemente, como já estamos vendo, no fundo da demonopatia está também a psicopatia sexual. Se nem sempre a sexualidade preponderava nas anomalias das bruxas campesinas do Medioevo e dos séculos XVI e XVII; outras vezes o estouro das repressões, a curiosidade mórbida, o instinto desenfreado por tudo o que se relaciona com sexo, junto é claro com a megalomania ou hipertrofia do ego, faziam-se e se fazem presentes de modo especial nas Missas Negras e outras manifestações semelhantes de satanismo urbano. As pessoas que se reúnem na adoração a Satanás foram e são, geralmente, aquelas que tiveram uma educação mais puritana e refinada. Sem “concessões” à realidade. E sem motivação. Imposta. Essa moral desmotivada, pura repressão, é freqüentemente fautora de escrúpulos, de neuroses... por um lado; e pelo outro lado fautora de satanismo, possessões...

Satanás teria fome de pessoas nuas! Detalhe de um quadro flamengo, século XVI

O PADRE “ESTUPRADO”. Já ficara realizado no exercício, absorvente e sem descanso, de suas tarefas. Seus ministérios, porém, foram diminuindo ao máximo, a par de suas forças. E não era santo, não agüenta mais a inatividade, a frustração... E como conseqüência: “Há anos que uma fulaninha, esta infame pequena mulher (o desejo transformado em insulto para tranqüilizar a censura), toda noite vem a mim, se lança sobre meu peito, e me comprime fortemente a ponto de não me deixar respirar (agente, carrasco e vítima). Se quero gritar (no fundo não quer), a voz se detém na minha garganta; se quero me levantar (não quer), ela me impede. Ela se apoderou de mim de modo absoluto. Eu a vejo com os meus olhos, a toco com as minhas mãos, inclusive quando estou acordado, ela está presente (Obsessão no sentido psicológico da palavra), mas debilitado como estou, me é impossível livrar-me”.

Tranqüilizada a consciência. Toda a responsabilidade de um conflito clara e exclusivamente psicológico fica transferida para o imaginário demônio súcubo (Incubo: demônio macho! Súcubo: demônio fêmea!).


UM “EXORCISMO” TODO ESPECIAL. O sacerdote e professor de Teologia Dr. Pietro Mariotti assistia aos exorcismos que se aplicavam a uma jovem possessa. A mulher, tão logo aparecia o exorcista, ou perante qualquer relíquia, ou quando era aspergida com água benta, ou às palavras mais encomiásticas do Ritual Romano de exorcismos, tremia toda, se contorcia, fugia, urrava, jogava-se ao chão, e ia se esconder sob os bancos (Fase histérica de reação). Estas cenas se repetiram por vários meses.

A cúria episcopal, os padres de toda a região de Florença, o próprio professor de Teologia, mas totalmente desconhecedor de Parapsicologia e mesmo de Psicologia, estava impressionado. Todos tinham certeza de que a mulher estava sendo atormentada pelo demônio. Mais exorcismos (que nada ajudavam e complicavam cada dia mais!).

Mas aquele demônio era simplesmente uma situação conflitiva: os parentes se opunham ao casamento que ela profundamente desejava. Dadas as circunstâncias, a família por fim cedeu. Realizou-se o matrimônio. E com este exorcismo ela ficou realmente liberada do seu demônio e vive feliz.


A RAIZ ESTAVA NOS DOZE ANOS. É claro que a causa do distúrbio psíquico também pode ser orgânica. Há uma interação, uma unidade psicofísica. A causa pode ser muito antiga. Pode ser hereditária e sutir efeito só na idade adulta ou mesmo senil. Dificilmente a um não-especialista ocorreria procurar as causas “tão longe”. Facilmente cairá no simplismo de procurar a causa mais longe ainda: no sobrenatural!

Sibila, “vivendo com seu pai, ocupou-se por muitos anos dos afazeres da casa sem que a sua conduta apresentasse qualquer detalhe digno de ter-se em conta (do ponto de vista patológico). Modesta, piedosa... era considerada como uma pessoa muito razoável”.

Bode inútil, “vá pastar!”...

Mas “Sibila estava convencida de ser vítima de um feitiço, exposta à influência do demônio, especialmente durante a noite. Quando ia dormir, o Diabo vinha à sua cama, despojava-a do seu corpo de carne, a desdobrava e transportava o seu duplo astral (absurdos dos espíritas e outros esotéricos). Ele se divertia torturando-a, batendo nela, flagelando-a, precipitando-a em moitas espinhentas, fazendo-a sofrer as piores humilhações ou, pior ainda, disparando sobre ela tiros de pistola (segundo o absurdo dos espíritas e ocultistas em geral, o inexistente ká, corpo astral, duplo etêrico, perispírito, etc. sofre, mas não pode morrer). Vítima de um tão horrível domínio, a desgraçada tentava desvencilhar-se, defender-se, recuperar seu duplo perispirítico, suplicava ao diabo que o devolvesse; e o esforço e as súplicas duravam muito tempo, até que, esgotada, o diabo consentia em devolver-lhe o perispírito que lhe tinha arrebatado”.

“Fatos curiosos: o duplo não era sempre restituído inteiro, senão por fragmentos: ora faltava um braço, ora uma perna, e só após uma luta violenta a doente recuperava por completo o controle do seu corpo. Às vezes, cansada de suplicar ao carrasco, levantava-se, mas, sob a impressão de estar sem corpo, cambaleava, as pernas a abandonavam a ponto de cair no chão”.


Vemos as clássicas manifestações conjuntamente de agente, vítima e carrasco, tão freqüentes na histeria ou auto-hipnotismo. A respeito das fantasias autocompensadoras, escreve o Pe. Lhermitte, que tratou do caso: “Nunca caíra (quando consciente) no pecado impuro; só durante as crises tinha a impressão de que o demônio abusava dela, abandonando-se como uma insensata às ações que é fácil imaginar”.

Foi enviada a um padre para que lhe administrasse os exorcismos. Felizmente o prudente religioso consultou ao Pe. Lhermitte. Este comprovou que, bem longe, na história de “Sibila se encontrava da maneira mais clara a causa da doença. Com efeito, com12 anos tinha sido vítima de uma espécie de encefalite letárgica e curada durante longos meses num hospital de Paris. Hoje conhecemos as longínquas conseqüências de tal doença, é evidente que a esta se deve remontar a causa do delírio demonopático”.

Frisemos bem: a causa clínica pode ser antiga, inclusive hereditária, mas clara e indiscutível. Não se pode procurar no além a causa deste estado delirante, associado à mentalidade interpretativa meio demonológica, meio espírita, que exige um diagnóstico de grave parafrenia. Sibila piorou no delírio de possessão, apesar ou melhor precisamente, por essa confirmação supersticiosa das freqüentes aspersões com água benta para exorcismos, do terço que alguns católicos lhe penduraram no pescoço, e do açúcar que alguns espíritas lhe recomendaram esparramar ao redor da cama. Sua vida, na realidade, acabou sendo completamente impossível. Teve de ser recluída para sempre num hospital psiquiátrico.
 
 
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