Insensibilidade
O DEMÔNIO VIROU ANJO DA GUARDA? Junto ao túmulo do Diácono François Paris, no cemitério de Saint-Medard, alguns convulsionários, após o mais agitado transe, que esgotaria qualquer pessoa em estado normal, saíam sem dar mostras de fadiga.

O Padre Montgeron refere que uma menina de treze anos, Joanne Müller, foi golpeada por ele e um atleta mais de cem vezes com toda a força que puderam (?!) na região do abdômen com uma marreta de ferro que pesava quase 15 quilos.


Também refere o Pe. Montgeron que colocavam pranchas de ferro sobre as pernas de certas mulheres, e sobre a prancha subiam oito e até 30 homens e pulavam sobre a prancha. (Apesar do estreito “palco”?! Viso aqui o aspecto insensibilidade. Para o aspecto força, ver o ARTIGO anterior: “Sansonismo...”)

Outras vezes o “auxílio” para expulsar o demônio consistia em golpes de espadas ou em oprimir os seios e outras partes do corpo com tenazes. (Por enquanto suponhamos, como mera hipótese, que tudo o que conta o entusiasta apologista jansenista foi verdade. Contra o que demonstram Hecquet, Vinchon, Du Bonnaire etc.)

Várias mulheres são crucificadas: Elas procedem como crianças (Histericamente) e com linguagem infantil (Se também imitam notavelmente a voz, é a chamada ecolalia, em Parapsicologia) ficam debochando das dores físicas.

O Pe. Lataste, o primeiro a atribuir ao demônio os acontecimentos do Cemitério de S. Medardo, pondera: “Vi uma jovem endemoninhada, que tinha uma cabeça tão dura como jamais foi-me dado observar. Golpeava com ela as paredes tão violentamente, que as pedras estremeciam (Seria bom especificar ao menos um pouco o sentido desta palavra!), como se um malho de ferro as ferisse. Um dia, após violentíssimos golpes, reduziu a pedaços uma peça de mármore.

E também Lataste: “Outra possessa, que pelos seus prodígios ganhara o apelido de ‘salamandra’ (= Operário que penetra nos poços de petróleo ardendo para conserta-los ou para preparar a extinção do fogo. O nome usa-se em Parapsicologia para designar as pessoa que por técnicas, truques ou verdadeira manifestação parapsicológica apresentam controle e insensibilidade ao fogo: pirovasia), era tão insensível à ação do fogo que se podiam cozer maçãs e endurecer ovos nas brasas colocadas sob o seu queixo”. (Repito: por enquanto suponhamos...)


Pirovasia. Em plena televisão, improvisando.
O Pe. Quevedo virou salamandra?

Acreditavam na época da bruxo-mania que as bruxas, após o pacto, ficavam com “stigmata diaboli”: um tipo desses estigmas do diabo eram os pontos insensíveis. Os inquisidores submetiam o suspeito a terrível análise picando-lhe todo o corpo, ponto por ponto. Quando encontravam um ponto insensível, o bruxo terminava irremediavelmente na fogueira ou na forca.

INICIO DA EXPLICAÇÃO. Para se vislumbrar a admirável resistência do organismo humano, bastará pedir a um adulto que através de um espelho transparente uni-direcionalmente, observe e reproduza todos os movimentos que do outro lado do espelho faz uma criança sozinha. O adulto transpirará, e no fim desistirá antes que a criança empolgada ceda nas suas brincadeiras.

Não é tão difícil compreender a resistência à fadiga, se levarmos em consideração o máximo aproveitamento das energias, da recuperação e das reservas do organismo. Na clínica do CLAP (antes de, lamentavelmente, suspendermos a hospedagem), temos observado certos histéricos ficarem horas e horas, o dia inteiro, às vezes inclusive parte da noite, caminhando apressadamente e ainda fazendo movimentos e tiques convulsivos, enérgicos e aparatosos. Some-se ainda o desgaste da tensão nervosa... Quando vieram ao CLAP já fazia muitos meses (ou anos) que se encontravam nessa situação. E ainda não haviam chegado ao esgotamento. Ao contrário. E a cura do sintoma não exigiu, geralmente, mais de algumas semanas. Claro, quando as causas que levaram a essa exteriorização são antigas, estruturadas, pode levar até bastante mais tempo...

Hoje se divulgam por todas as partes as façanhas dos faquires: agulhas, fogo, “camas” de pregos... Eu mesmo, em palco e na TV (são milhões de testemunhas), para desmascarar “super-homens” me tenho atravessado, inúmeras vezes, os braços, as maçãs do rosto, o pescoço... com agulhas de costurar colchões ou de tricô. Inúmeras vezes tenho quebrado grandes pedras de granito a marretadas sobre o estômago de um voluntário. Ou ficado em pé sobre uma criança deitada, despida, sobre a “cama” de pregos. Inúmeras vezes “lavei” as mãos e os braços com fogo. Etc.

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Em todos os meus cursos de divulgação quebro pedras a marteladas sobre a barriga de um voluntário. É a mais clara refutação de atribuir ao demônio fatos semelhantes.

Todo o anterior é pura técnica e exercício. A hipnose, e a histeria, podem suprir totalmente ou em grande parte a técnica e o exercício.

Para compreender outros casos mais “misteriosos” de insensibilidade nos “endemoninhados”, bastará lembrar que a dor é sensação. A dor é um conjunto de reflexos que respondem ao estímulo, mas esses estímulos são interpretados pelo cérebro. Qualquer sensação, por mais cutânea e externa que possa parecer, é conduzida ao cérebro (corrente aferente) que a interpreta, e de volta é projetada (corrente deferente) ao local da dor. Psicologicamente pode interromper-se a corrente.

No conjunto dos reflexos cerebrais, de acordo com as pesquisas da Reflexologia, o cérebro é, até certo ponto, livre e pode escolher, reagindo com dor ou com prazer, com insensibilidade total (analgesia) ou com aguda dor (hiperalgesia). A reação a um estímulo dependerá não tanto da fisiologia ou anatomia, mas também e principalmente do estado atual do cérebro submetido à totalidade de inumeráveis influências, entre as quais têm valor predominante as influências psíquicas, como, por exemplo, o que se espera naquelas circunstâncias. Cada neurônio, como qualquer célula, oscila entre um estado de atividade no qual é hipersensível e um estado de inibição no qual é insensível.

O parto profilático é um exemplo da anestesia psíquica, testemunhado por inúmeros acontecimentos, às vezes sensacionais, que confirmam a existência de mecanismos corticais que suprimem a dor.

Mirim Dajo, pseudônimo de um holandês que se especializou em insensibilidade, para desmascarar os “grandes poderes” dos faquires etc., e o “grande argumento” dos demonófilos. Pelo mesmo motivo, o Pe. Quevedo o imita para TV e Jornais.
A ANESTESIA HIPNÓTICA, ou auto-hipnótica, é hoje amplamente reconhecida. Nos estados profundos da hipnose, a analgesia é espontânea. O místico em êxtase, o médium em transe, o iogue em libertação, o sábio totalmente mergulhado em profunda concentração, etc., podem nada sentir.

A analgesia, como qualquer outro fenômeno que se possa obter por hipnotismo, pode aparecer com igual intensidade em certas circunstâncias sem a mínima pretensão de indução hipnótica.

Hoje nenhum “endemoninhado” resistiria a uma prova científica... Por exemplo, se o bruxo é um pouco insistente com o fogo, haverá consumação e morte dos tecidos. Como no caso da protegida pelo demônio, a “chefe” das convulsionárias do Cemitério de S. Medardo: como na “prova do fogo” a que foi submetida não sentiu dor, espontaneamente diminui drasticamente a marcha, e as queimaduras foram fatais.

Em fim, parece quase ridículo que se atribua ao demônio, que bonzinho!, a proteção contra a dor...