O milagre é possível?
Como afirmei e vimos na série anterior, de doze artigos, nada há mais importante e nada mais acirradamente discutido como os milagres. Tanto dentro da Teologia como dentro da Ciência (pois deve englobar-se dentro da ciência - Parapsicologia- toda a pesquisa sobre os fenômenos Supra-Normais, SN).

O absurdo deísmo: Deus criou o mundo, e nunca mais poderia agir nele!
A LUTA CONTINUA - Pareceria que a polêmica teria que terminar, uma vez definido com precisão o conceito. Os racionalistas, seguidos pelos modernistas, haviam atacado no plano meramente teórico. "Deram murros no ar", pois nem sequer sabiam o que estariam a negar, e assim nunca se assomaram ao estudo dos fatos. Caberia esperar que cantassem vitória os defensores do milagre, pois sabiam bem o que estavam defendendo e durante séculos haviam-se debruçado sobre o estudo dos fatos. Isso é ciência. E hoje a Parapsicologia moderna lhes dá plena razão.

Mas não terminou a polêmica. Não se concedeu vitória aos defensores. Por dois motivos:

1) Primeiro porque o mesmo preconceito que havia arrastado a maioria dos racionalistas à crassa "ignorância" de "acreditar" que o verdadeiro conceito de milagre estava expresso na definição espúria inventada por alguns deles mesmos; esse mesmo preconceito manteve grande número de racionalistas na hipócrita "ignorância" do verdadeiro conceito de milagre, e mantém até hoje os "modernizados" repetindo ingênua e "magistralmente" a espúria definição. "Época triste a nossa em que é mais difícil quebrar um preconceito do que desintegrar um átomo", como comentava Albert Einstein.

2) E segundo, porque a outra parte dos racionalistas, os que conheciam a verdadeira noção de milagre, afirmaram que, precisamente por conhecê-la, consideraram impossível o milagre. Impossível do ponto de vista da ciência de observação, impossível do ponto de vista da filosofia, impossível do ponto de vista da teologia. Impossível de todos os ângulos. E tudo isso, geralmente sem nada acrescentar, continuam a repetir, de boca cheia, os modernistas.

E assim esses "cientistas" negaram-se a estudar os fatos que apresentem qualquer ar de milagre... E o absurdo é que arrastaram inclusive a certos parapsicólogos... Que parapsicólogo é esse que se nega a estudar precisamente os fatos... "talvez" mais maravilhosos?

A IMUTABILIDADE DE DEUS - O filósofo judeu holandês, Baruch de Spinoza, passa por ser o primeiro, na segunda metade do século XVII, que insistiu em que aceitar a possibilidade do milagre seria blasfêmia, um sacrilégio. Equivaleria a negar a imutabilidade divina.

Spinoza não se apoiava, contra o que poderia parecer, na espúria definição de milagre: "derrogação, suspensão ou violação das leis da natureza". Não caiu ele nesse erro, propriamente. O erro de base foi muitíssimo maior: Spinoza caiu no absurdo panteísmo. Para ele Deus e a natureza se identificam!

= Tudo o que existe seria uma única substância infinita. "Portanto as leis universais da natureza (...) se deduzem da necessidade e perfeição da natureza divina (...) O poder da natureza o mesmo poder e potência divina. E a potência divina a mesmíssima essência de Deus". Com esse absurdo pressuposto, claro que o milagre não seria possível, porque Deus não pode modificar-se. E assim Spinoza pretendia revisar completamente a interpretação da Bíblia.
- É compreensível que com semelhantes disparates Spinoza fosse considerado ateu: "para o panteísta tudo é Deus, menos o próprio Deus!", porque estaria, como tudo, sujeito a mudança. E Spinoza foi expulso da Sinagoga.

O PANTEÍSMO - Quem aceita o absurdo panteísmo, logicamente ( se é que entre esses poetas a lógica sempre tivesse sentido!) rejeita complemente a possibilidade do milagre.
Por exemplo Lao-tse, fundador do taoísmo, na China, no século VI ou V. a.C., identifica a Divindade (Tao) com a contínua ação e livre jogo das leis e forças da natureza. Portanto nem o homem nem algum outro ser pode de maneira nenhuma incidir sobre as forças da natureza, porque seria perturbar a harmonia da divindade. Qualquer ação não passaria de mera ilusão!

É por isso que o sábio ou místico no taoísmo, no budismo, no hinduísmo etc. tem de ser um inerte! Refugiam-se na inatividade e dedicam-se (?) à meditação ou oca para a compreensão (?) de Deus.

DE NOVO SPINOZA - Agora em lógica conseqüência de seu absurdo panteísmo, Spinoza na sua obra principal insiste na impossibilidade do milagre. E quer que todo o mundo modifique sua forma de pensar a respeito das coisas e acontecimentos da natureza.

A impossibilidade que primeiro deduzira da imutabilidade de Deus, agora a deduz do ponto de vista da natureza. Dá na mesma Diz ele: "Porque as coisas particulares nada
mais são que afeções dos atributos de Deus, ou modos para dizê-lo de outra maneira".

Estes modos ou afeições (as coisas particulares da natureza) seriam imutáveis, seriam determinados, porque identificados com a essência divina. A contingência, a modificação, o milagre estão banidos da realidade, deduz Spinoza.

O DEÍSMO - A mesma negação da possibilidade do milagre por razão da imutabilidade divina, que Spinoza deduzia do seu errado panteísmo, outros a repetem, do século XVIII em diante, pretendendo deduzi-la, sem lógica, do erro diametralmente oposto: o deísmo.
Os deístas não identificam o Criador e as criaturas, aceitam a existência de Deus pessoal. Mas caindo no outro extremo, imaginam Deus completamente alheio ao nosso mundo.

Um Deus fechado na Sua grandeza, que na realidade seria sem amor nem teria "capacidade" de ocupar-se das suas minúsculas criaturinhas, os seres humanos. Nem revelação bíblica, nem milagres, nem Providência. Para eles não há mais religião que o pequeno conjunto de normas morais próprias de todo o gênero humano.
O deísmo nasceu na Inglaterra: Toland, Tindal, Collins. E logo se alastrou pela Europa capitaneado por Voltaire na França e Lessing na Alemanha.

Voltaire no século XVIII: "É impossível pensar que a natureza divina trabalhe por alguns homens em particular (...) Na realidade o próprio gênero humano é bem pouca coisa, em confronto com os seres que enchem a imensidão, muito menos que um pequeno formigueiro. Ora, não é acaso a mais absurda das loucuras imaginar que o Ser infinito subverta o jogo eterno das forças imensas que movem todo o universo, a favor de três ou quatro centenas de formiguinhas esparsas neste punhado de fango?"

--- Preciso responder?
1) "Pequeno..." em tamanho, sim, mas um só homem, espiritual e elevado a filho de Deus!, vale mais que toda a imensa natureza material.

2) - "Soberba... todo o universo..." Um milagre... mesmo que seja de revitalização de um morto!, causa toda essa subversão?

SARTA DE DISPARATES -- Sobre a verdade da imutabilidade divina, mal entendida, os deístas como os panteístas sobrepuseram suas deturpações e preconceitos. Foram imediatamente endossados pelos racionalistas.

* Continua Voltaire sua desvairada argumentação: "Deus não poderia alterar sua máquina senão para fazê-la andar melhor. Ora, é claro que sendo Deus, Ele fez esta imensa máquina tão boa quanto pôde. Se Ele viu alguma imperfeição (...) Ele haveria providenciado desde o começo. Assim, Ele não cambiará jamais nada" (...)

--- É evidente que Deus poderia fazer um e muitos outros mundos melhores e também inferiores..., não sendo maus. O preconceito é tão cego que nega as imperfeições?

* "Por que Deus faria um milagre? Para chegar ao cabo de um determinado desígnio sobre alguns seres vivos? Ele estaria dizendo então: 'Eu não consegui com a construção do universo, com meus decretos divinos, pelas minhas leis eternas preencher um determinado desígnio; tenho de alterar minhas idéias eternas, minhas leis imutáveis para tentar executar o que não consegui fazer com elas'. Isso seria uma confissão de Sua debilidade, e não do Seu poder (...) Assim, pois, ousar atribuir a Deus milagres equivale a Lhe dizer: 'Vós sois um ser débil e inconseqüente'. Um milagre é a violação das leis divinas matemáticas, imutáveis, eternas. Isto basta para fazer compreender que um milagre é uma contradição na própria formulação. Uma lei não pode ser ao mesmo tempo imutável e violada".

*Escrevia o ex-seminarista Renán, no século XIX: "O que nós negamos são as intervenções particulares de Deus, semelhantes às de um relojoeiro que haveria feito, é verdade, um relógio muito bonito, mas que não obstante precisaria retomá-lo de vez em quando nas suas mãos para suprir a insuficiência da engrenagem".

*E pouco depois, já no nascimento do século XX, Pierre Saintyves disparata contra a possibilidade do milagre: "O determinismo é assim corrigido pelo arbítrio divino (...) Este conceito é indubitavelmente impressionante e grandioso, mas é em contrapartida grotescamente antropomórfico. Representa Deus que, à imagem do homem, procede a golpes de decretos sucessivos e inclusive contraditórios; que constrói, e pode corrigir Sua construção".

"A finalidade do milagre é incompatível com Deus", concluem.
---- Respondo. Mas de onde é que os deístas, endossados pelos racionalistas e seguidos pelos modernistas, deduziram essa finalidade do milagre? De onde tiraram que o milagre existe para corrigir defeitos da máquina? Qual seja a finalidade, e todas as características, do milagre só se pode deduzir da análise dos próprios possíveis milagres. Deveremos nos debruçar na análise dos fatos. É do estudo acurado dos próprios milagres que poderemos deduzir e compreender qual seja a sua finalidade. É a partir dos fatos que se elaboram as teorias, mas racionalistas e modernistas não estudam os possíveis fatos Supra-Normais, SN, supondo que não existem. Por teorias negam-se a estudar e analisar os fatos; ora, as teorias nada valem contra os fatos.

- Se o milagre fosse essa criatura pintada por toda essa caterva de preconceituosos, todo pensador medianamente inteligente o consideraria incompatível com a sabedoria, dignidade, imutabilidade..., com todas as perfeições divinas. Mas o milagre nada tem a ver com essa caricatura grotesca, ignorante se não fosse mal-intencionada. Como muito bem retruca o excelente parapsicólogo pe. Zacchi, "dói dizê-lo, dão provas de uma imperdoável leviandade, combatendo um 'milagre' que ninguém (...) há jamais sonhado em defender (...) Não é para corrigir e retocar a máquina do mundo, não é para fazê-la caminhar melhor, que Deus intervém extraordinariamente no curso dos fenômenos. Não é corrigir nada, nada melhorar". É outra a natureza e a finalidade do milagre. O absurdo panteísmo: Tudo seria Deus. Menos o próprio Deus!

O absurdo panteísmo: Tudo seria Deus. Menos o próprio Deus!
PIOR QUE NO PAGANISMO - Na realidade o deísmo não faz mais que repetir e exagerar a essênciadas mitologias pagãs.

Os estóicos contemporizaram um pouco com a humanidade: aceitavam que a Providência Divina se ocupasse das coisas nobres, mas negavam que se estendesse às mais humildes e baixas, e menos às doenças e outros males.

Outros filósofos pagãos ainda menos profundos, como Epicuro e sua escola, pensavam grosseiramente que os inumeráveis deuses, adormecidos na paz e na moleza do Olimpo, em nada ligavam para as vicissitudes dos míseros mortais e das coisas.

Na mitologia greco-romana acontece que seus heróis peçam um sinal visível da proteção dos deuses, mas tais sinais são um raio, o vôo de um pássaro, um espirro, acontecimentos que segundo as leis da probabilidade não é admissível que surjam no momento desejado, mas que sempre se poderá dizer que aconteceram por uma casualidade feliz (...) Na mente de um grego clássico, os próprios deuses estão submetidos à ordem do cosmos. E em Homero a intervenção (dos deuses) é sempre da maneira mais natural. Inclusive quando Hera (a Terra) obriga Hélios (o Sol) a afundar-se mais rapidamente no Oceano, o fato continua sendo 'natural', porque Hélios, que eles concebem como um auriga, pode por vezes fazer que seus cavalos avancem com maior rapidez".

---- O deísmo é pagão. Apesar de se autoproclamarem cristãos quase todos os deístas (muitos dos racionalistas e todos os teólogos modernistas de ontem e "modernizados" de hoje), a realidade é que seu deísmo está nos antípodas do cristianismo. Cristo, depois de anunciado ao longo de toda a Bíblia judaica, revela não só com palavras senão também com ações, constituindo um inaudito escândalo para os pagãos, o infinito amor de Deus.

A deturpação, muitas vezes mal-intencionada, dos racionalistas, arrastados pelo preconceito, e a falta de raciocínio dos modernistas, ofuscados pelo resplendor do que pensam que é ciência de observação, da qual pouco ou mesmo nada se aproximam, chega inclusive a considerar o milagre um humilhante confronto de Deus com a capacidade humana.

--- Realmente a capacidade humana de dizer disparates, e mesmo blasfemias se soubessem o que estão dizendo!, é insuperável!

Por exemplo citemos Séailles: "O milagre particular, localizado, feito para favorecer a domicílio uma pessoa qualquer, humilha a Deus se for confrontado com quanto o homem há sabido fazer por si mesmo com sua ciência e sua industriosidade. Esse Deus sumamente bom e onipotente, que entre milhares de peregrinos consegue (!) obter somente algumas curas contestadas (pelos que nem as estudam nem as querem estudar), faz uma mesquinha figura frente ao cientista que com soro antidiftérico consegue arrebatar da morte todo ano milhares de crianças".

--- Respondo: Quantas disquisições no ar, fora do tema! O milagre não pretende arrancar da morte milhares de crianças. Essa é obrigação dos homens. E o cientista não pode - seja com a finalidade que for - realmente "arrancar da morte" nem uma só criança.
Como escreve o parapsicólogo Pe. Zacchi, "o milagre não se destina a ser um fator de terapia unicamente física, como parece, ou finge, supor Séailles. Deus não intervém no curso da natureza para mostrar Sua habilidade em soldar uma fratura, em fazer desaparecer uma chaga ou um tumor maligno, em vencer a febre etc. Certamente também nisto o Médico Divino, pela ausência dos meios, pela instantaneidade e estabilidade dos resultados, supera imensamente qualquer um dos mais famosos cientistas. E se não realiza curas mais numerosas não é por falta de poder (...) Pasteur, sincero e convicto na fé, jamais sonhou em encontrar-se em concorrência com Deus, nem jamais teve o pensamento sacrílego e ridículo de que as curas obtidas com seu soro antidiftérico pudessem eclipsar os milagres verificados entre peregrinos aos santuários católicos".

A miopia racionalista e modernista insistiu muito na idéia de humilhação para Deus. Pelo mesmo motivo citado por Séailles, ou por outros: o milagre favoreceria o antropomorfismo; abaixaria a Causa Primeira, infinita e absoluta, ao nível das causas segundas, limitadas e relativas; faria de Deus um elemento do mundo físico ou uma simples personagem da história.

--- "Ignoram" não só a verdadeira definição senão também e mormente a finalidade do milagre, a dignidade humana e o valor da Revelação.

Afirmam que admitir o milagre equivale a ter um conceito antropomórfico e humilhante de Deus! Ora, deveriam escolher: ou cristãos ou racionalistas, ou católicos ou modernizados. As duas coisas conjuntamente é uma bárbara contradição. Porque após a Encarnação, após a morte na cruz, após a Eucaristia..., qualquer milagre seria imensamente menor "antropomorfismo". Nenhum cristão tem direito a pensar que seria "humilhante" para Deus qualquer outra prova que quisesse dar do Seu infinito amor aos homens. Aquela objeção não foi tirada da Revelação com reta teologia, nem com reta filosofia deduzida da análise dos fatos. Puro e doentio preconceito.

Pouca diferença apresentam outras dificuldades, às vezes também alegadas pelos racionalistas (e sequazes de toda espécie) no seu desespero apriorístico de negar o milagre.

1º) A oração de petição a Deus não teria sentido... Com os seus preconceitos, a oração seria até imoral!

Dizem: "Tão logo pedimos favores aos deuses com preces e ritos adicionais, entramos no campo da magia".

--- Puro apriorismo ou "ignorância" racionalista. Magia nunca é "pedir favores". Nunca é "submeter-se aos deuses".

Magia é a pretensão de o homem com ritos ou técnicas submeter, dominar os deuses, ou os demônios, ou qualquer outro ser pretendido ou real de fora do nosso mundo. Magia é heresia, impossibilidade, pois pretende com técnicas naturais dominar o sobrenatural.
Os supersticiosos não pedem, pretendem dominar os deuses. E, pelo contrário, a "religião é a sujeição a um poder transcendente".

"Por outro lado, há a completa necessidade de que o transcendente se manifeste". Sem Revelação o homem não saberia em que crer; e sem milagres, sem as credenciais de Deus, a Revelação não poderia ser diferenciada da mentalidade mágica ou das invencionices humanas.

2º) A LEI MORAL - Se Deus - dizem - com o milagre pudesse evitar o efeito esperado por uma determinada lei da natureza física, estaria modificando essa lei. Então também poderia modificar as leis morais. E se Deus pudesse agir em oposição à lei moral, onde ficaria o Deus que apresentam como guardião da virtude, protetor da moral, adversário constante do pecado e juiz severo da maldade?

3º) A JUSTIÇA DIVINA - A possibilidade do milagre - dizem outros - iria também contra a justiça divina.

O teólogo protestante Sabatier, no finalzinho do século XIX, chamava a atenção para a justiça de Deus como sendo o principal motivo em que deveriam insistir, liberais protestantes e modernistas católicos, para provar (?) a impossibilidade do milagre: "As razões físicas e lógicas são completamente secundárias. A verdadeira razão é toda religiosa: o milagre seria injustiça. A igualdade de todos perante Deus é um dos postulados da consciência religiosa, e o milagre, como favor especial de Deus, só faz abaixá-lo ao nível dos caprichosos (?) tiranos da terra.

* E pela mesma época Jules Simon insistia no mesmo motivo: "Se Deus (...) intervém hoje e repulsa amanhã o Seu concurso, se concede a um ou que recusa a outro, se escolhe arbitrariamente (?) entre os homens, se torna semelhante a nós, acessível à cólera e à piedade, inseguro (?) nas Suas resoluções, impotente (?) nos Seus desejos e nos Seus atos; a Providência então deveria mudar de nome e chamar-se Destino. Deixemos esses deuses humanos aos teólogos pagãos, e deixemo-nos de meter em Deus paixões para salvar-lhe a liberdade (...) O pai de família não faz distinção entre seus filhos".

--- Respondo. O que estão dizendo os racionalistas? O que estão repetindo os modernistas? O óbvio ululante! Evidente! E por isso mesmo ridícula objeção. Certamente seria contra justiça de Deus, seria contra a Divina Providência e seria fazer um deus pagão, utilitarista, escravo dos homens, se Deus interviesse milagrosamente no mundo a qualquer simples pedido de suas criaturas, se evitasse todas as calamidades e desastres. Ou, ao menos, se obedecendo a todas as preces curasse todos os doentes, socorresse todos os miseráveis...

Então os milagres, ou por exemplo Lourdes, desceria ao baixo nível e se igualaria a um terreiro de umbanda, às "tendas de fé" de um pentecostal protestante, ou às sessões de sanação dos carismáticos católicos ou de qualquer outro curandeiro, todos ilegais exploradores da histeria...

Então o supranormal tornar-se-ia normal. O extraordinário viraria comum. Contraditoriamente o milagre deixaria de ser milagre. Tornar-se-ia indiferenciável, não serviria para sua finalidade de "assinatura" de Deus.

Sendo contraditório o milagre agir em todos e sempre, necessariamente tem de haver desigualdade ("no exterior"). Mas essa desigualdade necessária de modo algum implica injustiça divina. Acaso há duas folhas de árvore exatamente iguais? Dois animais exatamente iguais? Dois seres humanos idênticos? Há duas coisas exatamente iguais em todo o imenso universo? A infinita variedade do Criador nunca se repete...

Contraditoriamente ao que a objeção racionalista e modernista supõe, as leis físicas agem cegamente e têm um valor particular; enquanto o milagre age livremente, visando a sua finalidade superior, esta sim em benefício de toda a humanidade: há muitos tipos de milagres, mas mesmo nos milagres de cura, destacados pela miopia racionalista e modernista como "nepotismo", a cura de uns poucos corpos visa a cura de todos os espíritos, a visão restituída a uns poucos olhos destina-se a abrir as mentes de todos à luz da Revelação.

NA SEARA DA FILOSOFIA - A filosofia é tão bonita! . É tão realizador para o homem, único ser racional deste mundo, usar o raciocínio! Evidentemente a partir dos fatos; disquisições no ar são próprias de loucos..., ou dos racionalistas e livres pensadores (que como os loucos só raciocinam a partir da sem-razão, do preconceito, sem base; o livre-pensador se concede a liberdade de não pensar nas bases). Entremos na seara da filosofia, aplicada ao conceito de Deus, dando assim as mãos à teologia.

Uma verdade é a imutabilidade de Deus (em Si mesmo: "ad intra"); e outra verdade muito diferente é a mutabilidade de todas as coisas criadas (fora de Deus: "ad extra"). Deus em Si mesmo é imutável ("ad intra"); e os acontecimentos do mundo são muito variáveis ("ad extra").

"Ad intra": Deus decreta no seio da Sua eternidade: desde toda a eternidade e para toda a eternidade. Uma vez por todas e mantém sempre seu decreto. Um ato único e eterno de sua vontade. Decreta eternamente todos os acontecimentos, de que Ele é a causa imediata. Todos, tanto os que se cumprem no tempo ordinariamente como os extraordinários, os freqüentes como o único que fosse, a regra como o exceção, os naturais como os milagres... na Sua imensa variedade e infinita liberdade.
Os racionalistas perderam até o mínimo da base racional? Por onde o milagre contradiz a imutabilidade eterna de Deus? Porque se cumpre no tempo? Ora, racionalistas... Qual é a diferença radical com a relação da Criação no seu primeiro momento e as diversas fases da sua duração até hoje e até o fim dos séculos? A execução dos decretos divinos cujo termo são as criaturas entra necessariamente na vicissitude da transitoriedade ou do tempo contingente, mas os decretos necessariamente continuam imutáveis. Da mesma maneira, o decreto que tem como termo determinado milagre, como decreto tem seu lugar no seio da eternidade divina, e como termo se realiza no tempo.

Assim, o "argumento" (?) dos racionalistas contra o milagre aplicar-se-ia exatamente da mesma forma contra a lei, que eles quase divinizam! O "argumento" (?) deles nada prova, nada vale. Ou prova que os racionalistas (e sequazes, preconceituosos) são péssimos filósofos...

A filosofia é muito bonita, enobrece o homem... Mas realmente a gente gostaria de filosofar com seres racionais, não com racionalistas nem com modernistas, antigos ou de hoje...

O próprio líder dos deístas modernos, Jean-Jacques Rousseau, acabou por compreender -não há ninguém que possa negar a Rousseau lampejos de grande inteligência quando conseguia livrar-se dos seus preconceitos racionalistas- que a conclusão a que chegaram é completamente absurda: "Deus pode fazer milagres? Tal pergunta formulada seriamente seria ímpia, se não fosse absurda. Castigar a quem ousasse respondê-la negativamente seria fazer-lhe demasiada honra. Melhor seria encerrá-lo num manicômio".

NEWMAN - Agora baste acrescentar um trecho do extraordinário e brilhante Newman...

... MAS, PRIMEIRO, APRESENTAÇÃO - Estava-se em plena polêmica racionalista e liberal. John Henry Newman estudara em Oxford... tudo!: humanidades clássicas, literatura, matemáticas, direito e, por fim e durante toda a vida, teologia. Ordenou-se pastor anglicano. Pelo brilhantismo das suas pregações foi chamado "o Platão de Oxford". Posteriormente liderou o chamado Movimento de Oxford, que promovia os estudos sobre as diferenças e concordâncias entre Anglicanismo e Catolicismo.

Nestes estudos é que foi aparecendo paralelamente e com toda nitidez a "má vontade" e as deturpações dos racionalistas, seus antigos colegas. Após publicar 90 tratados "romanizantes", a Universidade e o bispo anglicano de Oxford proibiram-lhe publicar novos livros...

Período de reflexão. Converteu-se, com mais 150 outros pastores anglicanos, ao Catolicismo. Continuou estudando em Roma. Ordenou-se sacerdote católico.

Foi escolhido reitor da Universidade Católica de Dublin. Continuou sua ampla produção bibliográfica. Junto com muitos elogios, continuou também sofrendo algumas críticas veementes dos seus antigos correligionários anglicanos e racionalistas. Mas também de alguns dos seus novos correligionários católicos modernistas, e especialmente do cardeal Manning e outros teólogos aferrados a uma teologia divorciada da ciência de observação ou daqueles ramos da ciência que hoje chamamos parapsicologia. Claramente com intenção de reparação, Leão XIII nomeou-o cardeal.

O TRECHO DE NEUMANN - Prestado este tributo de admiração ao cardeal Newman, apresento só umas breves linhas de uma longa reflexão que ele fez, contra os racionalistas, sobre os motivos superiores para o milagre:

"Dedicando-se tão longamente à questão das leis da natureza, 'esquecem' em igual proporção a existência de um sistema moral (...) (Este sistema moral), nas suas leis e disposições é tão inteligível como o sistema do mundo material".

"Estes dois sistemas, o físico e o moral, estão umas vezes em harmonia, outras em conflito. E da mesma maneira que a ordem da natureza se encontra às vezes em oposição às leis morais, por exemplo quando homens virtuosos morrem prematuramente ou os dons de natureza são prodigados aos malvados; da mesma forma nada tem de inverossímil a idéia de que um grande objetivo moral possa ser realizado por uma interrupção da ordem física" (...)

"Se pois a economia da natureza está em relação tão constante com um plano ulterior, um milagre é uma interrupção (da regularidade, pela interferência de uma Força Sobrenatural) no sistema subordinado, em proveito do sistema superior. E em conseqüência, (o milagre) está bem longe de ser improvável quando um grande bem moral não pode ser alcançado às expensas da regularidade física".

"De resto, esta interferência necessária dos dois sistema não é motivo para tachar de imperfeição os planos divinos. Porque nós devemos considerar os sistemas da Providência como um todo" (...) Se nos aproximarmos das diferentes objeções que espíritos 'inventivos' (sem base) hão elevado contra o milagre, observaremos que quase todas nascem do 'esquecimento' da realidade de que existe um sistema moral. No seu 'zelo' (preconceituoso) em querer pôr na matéria leis perfeitas, 'esquecem' de uma maneira muito pouco filosófica um sistema mais sublime, que nos revela não só a existência senão também a vontade de Deus". (E aqui citações de Hume, Voltaire, Bentham etc.).

"Dir-se-ia que esses que assim raciocinam (os racionalistas!, "de maneira muito pouco filosófica") partem da suposição de que quando fazemos entrar a ação divina em consideração para explicar os milagres, fazemos apelo a algo que talvez nos vem de superstições populares (...). E daí procede que os autores em questão considerem a religião como fundada unicamente sobre a debilidade ou excentricidade do espírito (...) Incapazes, ao que parece, de penetrar num sistema que só se revela em parte, acham (sem argumentos, aprioristicamente, anti-cientificamente) que só as leis do mundo material são dignas de reter a atenção de uma inteligência científica, e se desembaraçam dos fatos milagrosos, e deixam de lado todas as circunstâncias" (...)

"(Assim) as objeções a priori dos céticos perdem completamente toda força. Os fatos não são improváveis (...) Pelo contrário, se os milagres da Escritura (e tantos outros sempre, até hoje) reclamam nossa atenção, o fazem como parte de um sistema realizado, como manifestação dos atributos divinos que conhecemos em harmonia com as disposições ordinárias da Providência. Como simples acontecimentos isolados, já poderiam legitimamente excitar a reverência com respeito ao misterioso Autor da natureza. Mas eles (os milagres) se apresentam a nós não como acidentes sem ligação e sem significado, mas como ocupando um lugar no vasto plano do governo divino, como completando o sistema moral, como religando (termo de que procede religião) o homem com seu Criador" (o milagre é o fundamento de uma religião sensata, adulta, tão diferente das superstições e religiões inventadas, infantis...)


O racionalismo e sequazes o que na realidade pretendem é destruir o Catolicismo..
"ESQUECERAM" OS FATOS! - Toda Ciência parte da observação dos fatos. Não é das teorias que se podem deduzir os fatos. É unicamente do estudo dos fatos que se podem deduzir as teorias.

Os milagres são possíveis? O mundo é um sistema aberto a alguma Força Superior? Deus pode intervir no mundo? Só pelo estudo dos fatos é que se poderá responder a essa pergunta.

As invectivas dos racionalistas certamente não surgiram da observação dos fatos, precisamente porque se negam a estudar fatos que aprioristicamente consideram impossíveis. As teorias se tiram dos fatos!!! Nada pior se pode dizer dos racionalistas, dado que pretendem disfarçar-se sob capa de cientistas. O único caminho existente em ciência é o caminho oposto ao seguido pelos racionalistas, e por isso mesmo indevidamente proclamados filósofos, teólogos ou qualquer outra denominação dentro da ciência. Parafrênicos. Loucura localizada.

Outros racionalistas que reconhecem que o milagre não seria violação das leis da natureza (é Outra Força) pretendem negar o milagre ou intervenção de Deus por outro motivo: porque as leis da natureza não podem deixar de agir. Dizem que são leis eternas, fundamentadas na imutabilidade do próprio Deus.

--- Uma coisa nada tem a ver com a outra. Para evitar tal confusão teórica basta dar uma olhadela ao mundo. Quanta bobagem teriam deixado de proclamar os racionalistas e de repetir os modernistas com só abrir os olhos... Pelas leis da natureza o capim deveria crescer, se não vier uma ovelha que o coma. Pala lei natural da gravidade este lápis que solto deveria cair ao chão, se não intervir outra força, uma mão que o segure...

A destruição contínua de coisas já é em si mesma uma prova incontestável do absurdo que é o panteísmo das poesias pseudo-religiosas orientais, hoje tão difundidas no máximo da irreflexão. Deus destruir-se a Si mesmo seria uma contradição nos próprios termos.
Pelo mesmo motivo (suposta a existência de Deus, para o que basta um milagre), basta a destruição de uma só criatura para deduzir necessariamente que Deus é transcendente.