Terceira Classificação de Milagre:
“Contra a Natureza”
A EXPLICAÇÃO TRADICIONAL. Santo Agostinho, no século IV, recolhe dos SS. PP. (= Santos Padres, título honorífico dos primeiros pilares da transmissão da doutrina cristã) e primeiros Escritores Cristãos (= EE. CC.) o verdadeiro conceito desta terceira classificação ou tipo de milagre. As duas primeiras classificações (“Supra” e “praeter naturam”) de milagre já vimos em artigos anteriores. Agora “Contra naturam”.
Seria absurdo afirmar que Deus agiria contra a natureza.

Como explica Sto. Agostinho na sua época áurea (pela que também ele recebeu o título de Santo Padre), só o preconceito dos ímpios, a falta de inteligência dos débeis (e, acrescento, a irreflexão ou lavagem cerebral sofrida pelos teólogos “modernizados”) afirmam tal disparate: “Para a lei soberana da natureza, elevada por cima da inteligência dos ímpios e dos débeis mentais, Deus não pode agir contra a natureza pois, seria agir contra Suas próprias leis”. Os milagres “dizemos que são ‘contra a natureza’, mas (...) o prodígio é feito não ‘contra a natureza’, senão contra aquilo que a natureza faz”.

Santo Agostinho, um dos maiores talentos da humanidade. Inicialmente passou por um período de confusão, mas dedicando anos e anos ao estudo e reflexão chegou a ser um magnífico guia no relacionamento entre Ciência e Fé, religião adulta, culta, racional.
*** As últimas palavras da frase original, em latim, de Sto. Agostinho ("contra quam est nota natura”) são de difícil tradução literal. E muito freqüentemente foi mal interpretada e, portanto, indevidamente citada pelos racionalistas e seus seguidores.

Na trilha aberta pelo racionalista David Hume, por preconceito uns, irrefletidamente outros, consideraram que a frase do santo e sábio bispo de Hipona significava uma afirmação de que Deus modificaria (!?), inclusive corrigiria (!?) as leis que Ele mesmo estabeleceu.

--- Estas interpretações erradas raiam os limites da blasfêmia.

RETA EXPLICAÇÃO. Por todo o contexto Sto. Agostinho refere-se na realidade a Outra Força, divina, agindo por cima (“Supra”), diferente (“Praeter”) e fora (“Contra”) das leis da natureza.

E assim o classificado milagre contra a natureza o explica Sto. Agostinho em numerosas outras passagens. Por exemplo: “Chamam-se coisas admiráveis (“miracula” em latim = milagres; “Supra-Normal”, “SN” em parapsicologia), quando Deus faz qualquer coisa fora e contrária ao curso conhecido e habitual da natureza”.

E como prevendo as tergiversações dos racionalistas e seus seguidores, no mesmo sentido traduz e glosa até insistentemente aquela frase agostiniana, nada menos que o insuperável Bento XIV (século XVIII): De acordo com “Santo Agostinho (...), pelo costume humano se diz que é ‘contra a natureza’ aquilo que é contra o usual da natureza conhecido pelos mortais (...). Deus, porém, criador e conservador de todas as coisas naturais, nada faz contra a natureza (...). D’Ele procede todo equilíbrio, medida e ordem da natureza”.

CONFIRMAÇÕES. Partindo do ensinamento da Sagrada Escritura e da tradição judaica, um grande pensador judeu medieval, Saadia Gaon (882-942), referindo-se aos milagres bíblicos do Antigo Testamento (pois os judeus não têm outros milagres) coincide exatamente com a explicação transmitida por Sto. Agostinho e confirmada tradicionalmente. Saadia muito inteligentemente demonstra que o milagre é uma irrupção excepcional (do poder) de Deus na natureza. E insiste, também muito acertadamente, em que os milagres são para justificar a veracidade da doutrina ensinada pelos profetas (“assinatura” divina, o sinal de que em anterior artigo discutíamos contra os teólogos “modernizados”).

*** O perfeito conceito defendido por Saadia sobre o milagre, como sendo uma intervenção excepcional de Deus, lamentavelmente foi “esquecido” entre muitos judeus antigos. O universo, todo inteiro, seria governado, instante por instante, pela ação onipotente de Deus. Não haveria lei nenhuma da natureza! Tudo na natureza seria ação contínua e direta de Deus.

No mesmo erro crasso caíram todos os maometanos (Eles não têm milagres). Especialmente frisado pelos muçulmanos assaritas.

--- Já na segunda parte do século XII, o genial Maimônides, ao comentar a “Mishnah” (coleção e síntese das opiniões legais do judaismo, até hoje, desde a codificação no século III antes de Cristo) levará os pensadores e o povo judeus ao conceito de milagre (Bíblico, Antigo Testamento) que Saadia acertadamente defendeu. E, como Saadia, também Maimônides defende que é o milagre que faz razoável aceitarmos a Revelação: “A Religião nos fez conhecer algo que somos incapazes de conceber, e o milagre testemunha o que acreditamos”.

Dez séculos após Sto. Agostinho também Sto. Tomás de Aquino insiste e explica muito claramente o verdadeiro significado da expressão ‘contra a natureza’: Tal “milagre se diz ‘contra a natureza’, sendo que na natureza permanece uma disposição contrária ao efeito operado por Deus; como outrora (Deus) conservou ilesos os jovens na fornalha, permanecendo puro no fogo o poder combustivo; ou como as águas do Mar Vermelho se abriram (para os israelitas passarem , fechando-se depois sobre os exércitos do Faraó Ramsés), mas permanecia nelas a lei da gravidade”.


O Mar Vermelho deve tal nome ao fato do reflexo vermelho (e dourado)  que as montanhas ao seu redor adquirem durante o nascer e o pôr-do-sol.
Esse é o verdadeiro conceito de milagre, de sinal, de assinatura divina, autenticamente bíblico, patrístico, católico. O mesmo conceito que acima vimos exposto por Sto. Agostinho, comentado por Sto. Tomás e depois mais explicado por Bento XIV. Isso é todo milagre. E aí se inclue o “milagre contra a natureza”: Este milagre não nega a natureza. “O milagre está fora da natureza e da lei” (em frase de Sto. Agostinho). No “milagre contra a natureza” o efeito da ação de Deus é contrário ao efeito que a natureza faria se fosse ela que agisse naquela ocasião.

Alguns exemplos. Refere a Bíblia no “Livro de Daniel” (3,13ss):

“Ardendo em cólera, Nabucodonosor ordenou que lhe trouxessem à presença Sidrac, Misac e Abdénago (...) Disseram (...) ao rei Nabucodonosor: (...) ‘O nosso Deus (...) tem o poder de nos livrar da fornalha acesa (...), não adoraremos a estátua de ouro que levantaste’. Então Nabucodonosor (...) deu ordem para que se acendesse a fornalha sete vezes mais que de costume (...). Entretanto, porque a ordem do rei era peremptória e a fornalha estava excessivamente acesa, os homens que nela arremessaram Sidrac, Misac e Abdénago foram mortalmente atingidos pelas chamas. Quanto aos três homens, Sidrac, Misac e Abdénago, eles caíram amarrados no meio da fornalha acesa, mas eles começaram a andar no meio das chamas, louvando a Deus e bendizendo o Senhor” (...)

“Então o rei Nabucodonosor (...), clamou: (...) ‘Saí para fora e vinde!’ (...). Os sátrapas, os magistrados, os governadores e os conselheiros do rei acorreram logo para ver esses homens: o fogo não tinha exercido poder algum sobre seus corpos, os cabelos de sua cabeça não tinham sido alterados, e nenhum odor de fogo se apegara a eles”.

Claramente aparece na Bíblia o conceito de “milagre contra a natureza”: O fogo conserva suas propriedades, intervém o poder de Deus.

*** Escreve Saintyves, imerecidamente um líder dos mais prestigiados pelos racionalistas antigos, e pelos “modernizados” de hoje: “Falta estabelecer que este livro é verdadeiramente de Daniel, estamos portanto no direito de contestar a história dos três jovens na fornalha (...), não seria menos ridículo que defender a autenticidade dos escritos atribuídos a Orfeu ou às musas. Igualmente como garantir a historicidade das maravilhas do ‘Gênesis’ e os milagres do ‘Êxodo’?”.

--- Muito cômoda esta atitude dos racionalistas e “modernizados”. E realmente ridícula. Por algum detalhe discutível, periférico e completamente acidental, desprezado pelos autores bíblicos precisamente porque são detalhes acidentais, os racionalistas e seus seguidores passam a negar o fato substancial, impressionante, inesquecível!

Na realidade eles estão negando o fato não por causa dos detalhes; negam por preconceito contra todos e contra qualquer milagre. Sem estudar os fatos! Sem Parapsicologia! Pelo mesmo preconceito para esses teólogos “modernizados”, como para os racionalistas, agnósticos, liberais... seriam também lendas todos os casos análogos posteriores!

Como sempre, há amplo material onde escolher no efeito bumerangue (= Com a repetição cada tipo de milagre ao longo dos séculos vai se confirmando e os modernos confirmam os antigos). E há várias modalidades de pirovásia supra-normal (= milagrosa invulnerabilidade ao fogo). Extrato agora a modalidade com referência especificamente a incêndios ou algum forno acesso, como nos três jovens do “Livro de Daniel”.

PRATICAMENTE IGUAIS.
Durante a perseguição do Imperador Adriano, o Papa São Alexandre, de apenas 30 anos, foi lançado à fornalha. Junto com o papa foi lançado à fornalha ardente São Evêncio, de 80 anos. Perto do forno estava em pé, preso também por ser cristão, o jovem São Teódulo. O papa São Alexandre gritou-lhe em alta voz: “Vem, meu irmão, vem conosco”. Como resposta, São Teódulo se arrancou dos seus guardas e pulou rápido na fornalha. Os três santos então ficaram passeando e cantando hinos de louvor a Deus.

São Faustino e Santa Jovita, exatamente como os três jovens hebreus, passeavam no meio da fornalha cantando hinos sagrados. Então o Imperador Cláudio II mandou que a fornalha ficasse mais acessa do que nunca para que reduzissem a cinzas imediatamente os mártires. Continuaram a cantar. Só depois alcançaram o martírio decapitados...

São Mamés recusou oferecer sacrifício a Apolo. Na perseguição decretada pelo Imperador Aurélio, foi lançado à fornalha para que o consumisse imediatamente. Ficou lá passeando e rezando durante três dias e no quarto saiu mais vivo e forte que antes.

UM MODELO DE CONSTÂNCIA
. Século II. São Victor de Damasco. Quebraram-lhe os dedos. Esfolaram largos pedaços do epitélio. Arrancaram nervos e tendões do seu corpo. Arrancaram seus olhos.

Por fim jogaram-no a um forno ferozmente acesso. Três dias após, não havia sofrido literalmente nada. Pelo contrário, sarara de todas as lesões sofridas anteriormente!
É por tudo isso que é chamado São Victor, isto é, santo vencedor.

POR CARIDADE. Século V. Um padeiro pendurou as roupas dentro do forno, apagado, para secarem após aquele tremendo aguaceiro. Pôs-se, nu –era noite e estava sozinho–, a fazer os pães. Colocou-os depois nas prateleiras das paredes do imenso forno. No mais alto da noite, esquecido das roupas, Acendeu o fogo. Quando já de madrugada foi se vestir...: as roupas ficaram dentro do imenso fogão!

O abade São Sabas de Capadócia passava então por lá e pretendeu consolar o padeiro que estava muito triste em situação constrangedora! São Sabas (Essa intimidade dos santos com Deus!) como se fosse a coisa mais normal do mundo, abriu o forno, entrou! Perante a estupefação do padeiro, atravessou as chamas, chegou à parede oposta, pegou as roupas, atravessou de novo as chamas e saiu com as roupas sem que ele nem elas sofressem a mínima conseqüência.

MUITO PARECIDO. Século XII. A mesma intimidade com Deus, para resolver um problema prático de um pobre padeiro. O padeiro esquecera no forno a pá de carregar os pães. São Silvestre abade, tranqüilamente entrou no forno, atravessou as chamas, ida e volta, e saiu com a pá especial de que tanto precisava o padeiro para poder cumprir com os compromissos dos seus fregueses que de manhã viriam reclamar enorme quantidade de pães...

COMO ORDÁLIO. Fim do século XI. O pilantra Arcebispo de Florença, Pedro de Pavia, lucrava vergonhosamente com a venda de poderes sagrados (= Simonia, nome dado porque Simão o Mago queria comprar o poder da “magia” -milagres- que manifestava o Apóstolo São Pedro).

Os monges da Abadia de Valombrosa acusaram o Arcebispo perante o Tribunal Eclesiástico. A palavra dos monges contra a do Arcebispo e dos que com ele compactuaram...

O Tribunal Eclesiástico de Florença exigiu “o juízo de Deus” (= Ordálio, assim chamado esse ato ilícito, freqüente na época da Bruxaria, de pretender forçar Deus a manifestar-se).


Desenho da absurda prática do “ordálio” ou “prova do fogo”.
Entre os monges, São Pedro Aldobrandini ofereceu-se para protagonizar “a prova de fogo” (É por isso que o Papa Gregório VII haverá de chama-lo “o ígneo”). O santo serenamente avançou em direção ao violento fogaréu. Um túnel de luz deslumbrante sob uma abóbora rubra. Expectativa densa. Por fim vêem São Pedro o ígneo, sair da fornalha sem um chamusco sequer nos cabelos ou nas roupas.

Em conseqüência o Papa Alexandre II depôs o escandaloso arcebispo Pedro de Pavia e honrou São Pedro o ígneo com o título de cardeal-bispo de Albano.

POR ACIDENTE. Século XII. Num pequeno segundo andar na Igreja de Seburg (França). Um violento incêndio. São Drogon prostrou-se de joelhos em oração. E assim foi encontrado, tranqüilo, absolutamente incólume, sem o mínimo chamusco, quando o fogo se extinguiu naturalmente após consumir até os escombros todo o edifício.

Século XIV. Santa Catarina de Siena, pretendendo ajudar a apagar um violento incêndio, acabou caindo no meio das chamas. Todos a viram caminhando entre as chamas até sair, e nem um só cabelo foi chamuscado.

ISSO É QUE É BOMBEIRO. Século XV. Um forno de cal, que estava aceso havia já 24 horas, estourou. As chamas saíam pelas fendas e ameaçavam destruir todo o forno. Chega São Francisco de Paula. Pela sua fama de taumaturgo todos olharam para ele. Importante era o forno para o mosteiro que estavam construindo em Consenza. E para repará-lo só de dentro! São Francisco de Paula tranqüilamente entrou no forno! Passou o tempo. As chamas não mais saíam pelas fendas. Passou mais tempo. Os trabalhadores foram fazer a refeição. Quando bem mais tarde voltaram, encontraram o santo tranqüilamente lavando as mãos, ele tinha argamassado as fendas. Nem o mínimo chamusco na roupa, nos cabelos...

Provavelmente o próprio São Francisco de Paula (1416-1507), fundador da “Ordem dos Mínimos”, seja quem mais haja repetido na sua longa vida (91 anos), com absoluta confiança em Deus, “a imunidade ao fogo” (Pirovásia é chamada em Parapsicologia).

Entre tantísimas  Pirovásias SN, a de São Policarpo, em desenho  do ano 155.
E MUITÍSSIMOS OUTROS CASOS.

Os insuperáveis historiadores chamados “Bolandistas” (Dos que já hemos falado e elogiado ao máximo em outros artigos) recolhem como inegáveis outros casos de Pirovásia SN. Em fornalhas, o que agora frisamos:

* São Basílio.

* Santos Trófimo e Teófilo conjuntamente.

* São Cristóvão, que saiu incólume da fornalha e sarou imediatamente das flechas com que o atravessaram. Por fim alcançou o martírio sendo decapitado à espada (É muito típica este respeito divino à intervenção direta do homem).

* Santo Efésio

* Santa Cristina.

* São Genaro, o mártir padroeiro de Nápoles, muito famoso pelo seu sangue incorrupto até hoje. Também “foi lançado a uma fornalha ardente da qual saiu sem nenhuma lesão, inclusive sem que seus hábitos fossem chamuscados e sem que perdesse um só dos seus cabelos”. (É por isso que é invocado nas erupções do Vesúvio).

ETC., ETC., ETC
. Como da classificação Pirovásia, também poderíamos citar muitos milagres “contrários às leis da natureza” em outras classificações de fenômenos...