Milagre, ou Especialmente Providencial?
A MODO DE INTRODUÇÃO. Como já frisamos em outras oportunidades, há alguns parapsicólogos que se negam a estudar os possíveis fenômenos SN, milagres verdadeiros ou falsos, e concretamente se negam a estudar os fatos referidos na Bíblia. “Isso seria Religião”, dizem, “pertence à Teologia”. E eles se gabam de serem ateus.
-- O exato é chama-los “á toa”, falsos parapsicólogos e falsos cientistas. Corresponde à Parapsicologia estudar os fenômenos misteriosos do nosso mundo. É que os verdadeiros ou falsos milagres, bíblicos ou extra-bíblicos não são fatos do nosso mundo? È que a própria Bíblia não é do nosso mundo? Fatos ou lendas, verdadeiros ou falsos SN, bíblicos ou não, é a Parapsicologia que, após estudo, deve se pronunciar. O parapsicólogo que exclua do estudo determinados fenômenos misteriosos só por estarem relacionados com Religião, não é cientista, padece de preconceito até doentio. Como não corresponde à Teologia pronunciar-se sobre os fatos como tais. A doutrina sobrenatural, inobservável... que a analisem os teólogos. Os fatos misteriosos que os analisem os parapsicólogos.

O VERDADEIRO SENTIDO DE “PROVIDÊNCIA”.
1)
Muito acertadamente já o grande pensador Aristóteles (384-322 a.C.) mostrava que entre acontecimentos que podem parecer fortuitos, alguns são mais maravilhosos precisamente porque, embora naturais, parecem dirigidos por uma intenção não natural. Apresenta o exemplo da estátua de Mitio:

Um tal Mitio morrera assassinado. Quando o assassino contemplava a reprodução da sua vítima, a estatua caiu violentamente sobre ele, matando-o.

-- Dificilmente poderia aceitar-se que fosse pura casualidade... Para qualquer desconhecedor de Parapsicologia e naquela época, as circunstâncias pareceriam (claro que meramente pareceriam) advogar para uma interpretação especialmente providencial: “Justiça dos deuses”, diziam os contemporâneos de Mitio.

-- Certamente, como a Parapsicologia prova e veremos em outras séries de artigos, não se deveu tal prodígio, nem nenhum outro, nunca, à ação do morto.

-- Para qualquer conhecedor de Parapsicologia, tal fenômeno certamente é natural: hoje se explica por uma notável telecinesia provocada pelo estado fortemente emocional do próprio antigo assassino e agora vítima. Possivelmente com reforço telérgico de algumas testemunhas...

2) Descreve muito bem (como não poderia deixar de ser de tal escritor!), Bento XIV o que se entende por especialmente providencial: “Algum fato que não excede as forças da natureza nem no referente ao fato como tal, nem no referente á em quem se faz, nem com referência ao modo ou ordem com que se faz; mas pelas circunstâncias claramente se deduz que o fato (...) deve ser atribuído a Deus como especial autor, que por Si mesmo dispôs o acontecimento e deliberadamente o quis”.

O que restou de Sodoma, ao sul do mar morto. Uma planície coberta de sal, inóspita, coberta de fendas. Na Bíblia a destruição de Sodoma é classificada como castigo de Deus
UM CASO BÍBLICO. E o sábio papa, o melhor parapsicólogo de todos os tempos, um milagre de ciência infusa, escolhe um exemplo:

“Moisés disse a Faraó: ‘Digna-te dizer-me quando deverei rogar por ti (...) para que as rãs sejam arrancadas de ti e das tuas casas, e fiquem somente no rio’. Ele respondeu: ‘Amanhã’. E Moisés disse: ‘Seja conforme a tua palavra, para que saibas que não há ninguém como Iahweh, o nosso Deus’ (...) E Iahweh fez conforme a palavra de Moisés: e morreram as rãs das casas, dos pátios e dos campos. E juntaram-nas em montes imensos” (Ex 8,4-10).

Comenta Bento XIV: A praga das rãs, como a peste que acabou com elas “não supera de nenhuma maneira as forças da natureza. (Mas Moisés) confiava que se (o Faraó) visse (as rãs) desaparecidas na hora prescrita, compreenderia que tinham sido lançadas por Deus como praga e castigo, e depois expulsas pela misericórdia de Deus” com a peste também na hora predeterminada.

Miniatura medieval representando as pragas do Egito. Foram anunciadas por Moisés em nome de Deus até conseguir que o Faraó desse liberdade aos Israelitas.
OUTRO CASO BÍBLICO. Santo Tomás alude a outra passagem, entre tantas, também como exemplo de fatos especialmente providenciais, “precisamente porque acontecem na hora exata da invocação do nome de Deus, como é o caso da mão de Jerobão”:

Quando o rei Jerobão estava para oferecer incenso ao ídolo e estendia á mão mandando prender o homem de Deus que o incriminava, clamou o profeta a Iahweh, e nessa hora determinada á mão de Jerobão ficou seca (1Rs 13,1-6).

-- As circunstâncias mostram que pode ser perfeitamente natural o fato de que a mão ficasse paralisada, por exemplo por uma somatização ou inibição de origem psicológica. Basta esta interpretação? “O que se pode explicar por menos, não se deve
explicar por mais”.

*** Casos como estes, explicáveis naturalmente, são os únicos que os teólogos “modernizados” admitem. E geralmente marginalizando o aspecto de especialmente providenciais.

-- E no exclusivismo está o gravíssimo erro. Na realidade, com razão os fatos especialmente providências são assimilados aos SN, porque embora possam realizar-se por força da natureza, acontecem conjuntamente por poder divino. Corresponde ao cientista dos fatos misteriosos, ao parapsicólogo, analisar e apresentar ás diferenças, as causas porque tais casos às vezes podem ser simplesmente naturais (dentro da divina providência ordinária: “Nada acontece sem que Deus o queira ou o permita”), e outras vezes claramente especialmente providencias.

NOMENCLATURA BÍBLICA. Os teólogos “modernizados” na sua característica desorientação no campo da ciência de observação, na deturpação do conceito e na negação do milagre, freqüentemente pretendem se basear nos termos usados pela Bíblia.

Uma palavra que signifique com alguma exatidão o conceito de fenômeno SN, milagre, não existe nem em hebraico nem em grego, as línguas em que foi escrita a Bíblia. Em vez de um termo exato correspondente ao conceito de fenômeno SN, milagre, a Bíblia usa numerosos outros termos.

Comecemos pelo Antigo Testamento. Freqüentemente os milagres são chamados térata (teras no singular) = prodígios, para destacar a grandeza da intervenção divina. Teras é termo tirado do paganismo grego que assim denominava os prodígios atribuídos aos deuses. Equivalente é o termo megaléia = grandes realizações. O termo taumásia destaca a admiração que despertam. Com parecido significado às vezes é usado também o termo paradoxa, isto é, fatos inesperados, surpreendentes, que pareceriam inadmissíveis... precisamente por serem térata, megaléia e taumásia. Devemos destacar que inclusive a palavra seméion = sinal, é empregada no paganismo grego (e romano...) para designar (se fossem reais!) os mais estupendos milagres nas suas lendas.

*** Por exemplo, entre muitos o padre jesuíta Léon Dufour (excelente no campo da teologia pura, mas péssimo no campo científico ou parapsicológico), representando a mentalidade de todos os teólogos “modernizados”, pareceria que está à altura, ou como dizem eles atacando a quem defende os milagres, SN (Bom, eles nem conhecem em esse termo), “permanece fiel ao o homem arcaico”. Assim na época de Moisés, insistem, “o milagre, enquanto fato, pode ser atribuído às causas naturais tão perfeitamente como a Deus mesmo”.

-- Mas os exegetas “modernizados” ridiculamente estão hoje muito por baixo daqueles que chamam homens arcaicos, porque naquela época sabiam muito bem distinguir entre plenamente natural (ou providencia ordinária, diríamos hoje) e especialmente providencial e SN ou verdadeiro milagre. Perante os fatos realizados por Moisés, os magos do Faraó souberam exclamar: “O dedo de Deus está aqui”. Não é verdade que no Antigo Testamento, “o homem arcaico” fosse unilateralista, parcial, tão atrasado (ou com tanta lavagem cerebral) como os mestres da teologia “modernizada”.

A famosíssima estatua de Moisés, por Miguel Ângelo. Na Igreja “San Pietro in Vincoli”, Roma
Passemos ao Novo Testamento. Freqüentemente os milagres são chamados dínameis (dínamis no singular), para destacar o trabalho poderoso, o poder inigualável da manifestação divina.

Esse mesmo aspecto é muito expressivamente destacado pelo termo, também usado no Novo Testamento, adínata, isto é, obras impossíveis ao homem, e por isso propriamente divinas, porque Deus tudo pode fazer.

São João emprega simplesmente erga (ergon no singular) ao referir-se às obras ou trabalhos de Deus Pai e de Jesus. Mas os leitores da época conheciam o sentido sobrenatural (SN, supra-normal) das obras de Deus, são obras de poder. Eles sabiam, por exemplo, que no Gênesis se enumera entre os grandes feitos ou realizações de Deus o grande feito, por excelência, da criação (Gn 2,2); e que no Éxodo e nos Salmos chamam-se erga os grandes feitos de Deus em favor de seu povo (Ex 34,10; Sl 66,5;77,12). Erga era mais um termo empregado no paganismo grego para designar os mitos que eles atribuíam à intervenção dos deuses.

É muito eloqüente que dínamis e taumásia apareçam freqüentemente associados. Como também há que notar que o termo dínamis apareça outras vezes em paralelo com o termo hebraico pel’e, procedente da raiz pl’ ou plh = ultrapassar, colocar à parte, estar além de tudo o que se possa fazer ou mesmo compreender: taumásia.

CONCEITO BÍBLICO. Os teólogos “modernizados” chegam nas suas confusões preconceituosas a afirmar inclusive que não é bíblico o próprio conceito de milagre:

*** A Bíblia, dizem, não distingue natural e sobrenatural.

– Caíram num espantoso exclusivismo: É sabido que na Bíblia, sim, digamos com eles, “tudo o que acontece no campo do que nós chamamos natureza, é o trabalho de Deus mesmo. Mas nestas operações Sua mão é invisível (...) (Outras vezes) vê-se Sua mão mais diretamente nas ocorrências extraordinárias e terrificantes, como o relâmpago e o trovão. Estes são atos do poder de Deus, nos quais o homem tem uma mais imediata experiência de Sua mão”. “Convém destacar desde logo (continuamos usando as palavras deles) que, sendo usual da linguagem bíblica atribuir diretamente ao próprio Deus o que é efeito de causas criadas, naturais, quer se trate de fenômenos físicos quer de livres ações humanas, seria simplista ver um milagre verdadeiro e completo em tudo o que a Escritura apresenta como operado por Deus”.

Concedemos também que nem sempre interessa à Bíblia, do Velho Testamento especialmente, dado o grande ênfase com que se destaca a ação de Deus, distinguir entre divina providência ordinária, divina providência especial, e interferência por SN, milagre. Invertendo o ponto de vista podemos dizer paradoxalmente que “para o homem bíblico o milagre forma parte integrante da natureza das coisas”. como afirmam.

-- É verdade. O erro está no exclusivismo:

1) Porque também é verdade que a Bíblia, junto à “mão de Deus” agindo ordinariamente como também “terrivelmente” pela natureza ou “pelas causas criadas”, apresenta também uma ação especial de Deus, ação que considera privilégio concedido aos profetas enviados por Deus:

* “Iahweh disse a Moisés: ‘Eis que te fiz como um deus, e Aarão, teu irmão será o teu profeta’” (Ex 7,1s).

* “E eles saíam a pregar por toda parte, agindo com eles o Senhor, e confirmando a Palavra por meio dos sinais que a acompanhavam” (Mc 16,20).

* “Paulo e Barnabé prolongaram sua permanência por muito tempo, cheios de confiança no Senhor, que atestava a pregação (...) operando sinais e prodígios pelas mãos deles” (At 14,3).

Uma das pragas de Egito. Com fortíssimo terremoto, é claro que muitas casas de pedra desabaram, morrendo muitos egípcios. Os hebreus, porém, escravizados, moravam em rudimentares tendas e barracas de pele, e assim ficaram incólumes.
Poderíamos acrescentar textos em grande quantidade.

2) Um passo a mais: certos fenômenos que hoje discutiríamos e mesmo quando os qualificássemos como Extra-Normais (EN) e Para-Normais (PN) na nomenclatura da Parapsicologia, a Bíblia apresenta-os como especialmente providenciais. Tal poderia ser todo o conjunto das pragas do Egito:

* “Se o Faraó vos dizer: ‘apresentai um prodígio em vosso favor’, então dirás a Aarão: “Toma a tua vara e lança-a diante de Faraó; e ela se transformará em cobra’” (Ex 7,1s; 8s).

* “Disse Iahweh a Moisés: (...) ‘Toma a tua vara e estende a tua mão sobre as águas dos egípcios, sobre os seus rios, sobre os canais, sobre as suas lagoas e sobre todos os seus reservatórios, para que se convertam em sangue. Haja sangue em toda a terra do Egito, até nas árvores e nas pedras’” (Ex 7,19).

Também aqui, no conceito de “especialmente providencial”, poderíamos acrescentar numerosos textos

3) E o conceito de Divina Providência (ordinária ou mesmo “terrificante”, privilegiada e especial) não exclui o conceito, também bíblico, de verdadeiro SN.

-- É até ridículo que os teólogos “modernizados” esqueçam que o Antigo Testamento destaca que na natureza, correndo seu curso ordinário, de tempo em tempo intervém bem especificamente o Onipotente.

Ë até ridículo que não vejam que a Bíblia destaca essas intervenções extraordinárias, inusitadas, inesperadas: “Isto é o dedo de Deus” (Ex 8,15), tiveram de reconhecer os magos de Faraó já no início da progressiva manifestação de Iahweh.

Embora todos os acontecimentos, ordinários e extraordinários, sejam apresentados como obra de Deus (Sl 77,12; 86,8); não obstante, também quase habitualmente e especialmente no Êxodo, na literatura sapiencial e nos Salmos, destacam-se os verdadeiros SN, as maiores e as mais assombrosas realizações de Deus a favor do seu povo.

Sem os preconceitos ou lavagem cerebral hoje tão difundidos, Robinson com ótima exegese e partindo do estudo da realidade mostra que no Antigo Testamento natureza, especialmente providencial e milagre são considerados aspectos diferentes da atividade de Deus. E que os milagres são considerados manifestações de Deus bem mais destacadas, muito superiores, aos fenômenos da natureza.

*** Insistem com seu errado exclusivismo os teólogos “modernizados”, talvez capitaneados pelo teólogo holandês Adrianus de Groot: “Para entender o que seja o ‘milagre’ na Bíblia, temos de prescindir desta nossa concepção de milagre (...) A Bíblia nunca põe em luz o milagre em relação com a natureza, mas em relação com Deus. Para a Bíblia o milagre representa uma experiência da ação de Deus nos acontecimentos”.

-- Respondo: É verdade que a Bíblia, mais freqüentemente e como seria de esperar precisamente por tratar-se da Bíblia, apresenta o milagre do ângulo de Deus. E a ciência atual, também como é de esperar dela, considera o milagre mais freqüentemente do ângulo da natureza. É até ridículo que os teólogos “modernizados” não percebam que isso é absolutamente lógico.

Mas desse detalhe absolutamente normal não se pode objetar que Bíblia e Parapsicologia tenham conceitos diferentes de milagre! Quando se trata de verdadeiro milagre (e especialmente providencial), para a Bíblia como para a Parapsicologia trata-se absolutamente do mesmo acontecimento supra-normal, sobrenatural. Simplesmente com ênfase em dois aspectos diferentes, mas de nenhum modo exclusivos: acontecimento sobrenatural por ação direta de Deus (na ênfase bíblica) e acontecimentos supranormal por não dever-se as forças da natureza (na ênfase das ciências de observação ou Parapsicologia). São a mesma realidade.

– Além do mais, apesar do enfoque habitual que interessa ao Antigo Testamento, por vezes expressamente se distingue Divina Providência e verdadeiro SN. Nos conceitos, claro está que não com essas palavras de hoje. Por influência do helenismo, sim, mas se contrapõe o que a natureza pode e o que não pode, exigindo portanto neste caso a explicação por ação direta de Deus. E os rabinos, como os judeus em geral, conheciam muito bem as expressões bíblicas.

ENUMERAÇÃO BÍBLICA
. “O mais surpreendente: na água, que tudo apaga, o fogo ardia mais ainda (...) Ora a chama se abrandava para não queimar (...), para que vendo-os compreendessem que o juízo de Deus os perseguia; ora, mesmo no seio da água, ardia mais forte que o fogo (...). Neve e gelo resistiam ao fogo sem derreter-se: soube-se assim que o fogo, ardendo no meio do granizo e lampejando nos aguaceiros (...), mas o mesmo, noutra ocasião, esqueceu-se da sua própria força (...). Viu-se (...) a terra emergir enxuta onde era água (...); do mar subiram codornizes” (Sb 16,18-24; 19,7-12).

Muitos fenômenos SN incluem-se nesta breve classificação aqui escolhida pela Bíblia. Mas há outras muitas classificações de fenômenos SN. Em outros artigos vimos várias dessas classes de fenômenos realmente supranormais: sinos que badalam sozinhos ou que, pelo contrário, resistem a soar; transformação de diversas substâncias em alimentos; cegos que vêem sem que fisiologicamente pudessem ver... E dentro da classificação pirovásia, várias modalidades: arder sem consumir; o fogo atinge o objeto sem danificá-lo; apagar instantaneamente o fogo, invulnerabilidade especificamente em incêndio ou fornalha, etc.

O que viso no parágrafo anterior é que o leitor vá tomando consciência de que... há muitos fatos que exigem ser conhecidos porque oferecem a evidência de serem realmente supranormais (SN). Em todas as classificações de fenômenos e nas diversas modalidades dentro de cada classificação. Correspondendo a cada classificação de fenômeno extra-normal (EN) e para-normal (PN), há também fatos com a dimensão supra-normal (SN).

Muitos e muitos milagres. Um tesouro incalculável, que há que “contabilizar”. Há que abrir esse tesouro para que brilhe em toda sua real intensidade, precisamente porque é a mais sensacional e brilhante realidade do nosso mundo. Um tesouro que os racionalistas e seus seguidores, inclusive os teólogos arrastados sem reflexão ao modernismo, “modernizados”, e certos parapsicólogos ateus “esqueceram” simplesmente porque fecham sempre os olhos quando viram o rosto nessa direção. Isso é preconceito indigno de quem aspire a ser considerado cientista, ou inclusive ser humano, racional. Isso é preconceito gravemente doentio...

HÁ MILHARES DE EXEMPLOS. Continuemos com a pirovásia, classificação que ao acaso escolhemos em artigos anteriores.


Imagem em madeira, século XVIII, da mártir Santa Luzia. Museu de Arte Sacra, Salvador (Ba).
NA ROUPA E NAS MÃOS! Santo Toríbio, bispo de Astorga, Espanha. Um diácono acusou o bispo de um enorme crime. A confusão era geral. A igreja estava cheia. Santo Toríbio não duvidou um instante em recorrer ao “juízo de Deus” (que ainda não fora proibido expressamente pela autoridade eclesiástica). O bispo foi pegando com uma mão carvões acesos e carregando seu próprio roquete, que com a outra mão mantinha em forma de bolsa.

Quando já tinha sobre si mesmo um grande braseiro, foi lentamente percorrendo a igreja, para que todos vissem e sentissem o fogo que levava na sua sobrepeliz e que mexia com a mão livre. Assim, pelo sinal divino ou “juízo de Deus” Santo Toríbio convenceu a todos de que era inocente, e o diácono ficou convicto e confesso de calúnia.

TODO O CORPO! Lembra o internauta o significado do chamado “efeito bumerangue”: Através dos séculos a mesma classificação ou tipo de fenômeno SN vai se reforçando pela repetição e os modernos confirmam os antigos.

* Bem nos inícios do cristianismo. Sob o imperador Nero. Santa Tecla de Licaonia, convertida pela pregação do apóstolo São Paulo, rejeitou o casamento com Tamaro, por ser pagão. Tamaro então acusou os dois perante o procônsul de Iconio. O apóstolo Paulo foi acusado de perverter a mente do povo incitando-o a seguir, como Santa Tecla, um Deus estranho aos deuses do Império. (Tamaro reforçava assim outras acusações que faziam os judeus).

São Paulo foi açoitado, apedrejado e terminaria algum tempo depois tendo de fugir de Iconio (At 14,1-2.4-6.19-20).

Santa Tecla, após muitas intrigas de Tamaro, foi ameaçada, bem ostensivamente, de morrer na fogueira. Quando o fogo estava no máximo, Santa Tecla, para demonstrar sua inquebrantável decisão de não oferecer sacrifícios aos ídolos, espontaneamente pulou no meio das chamas. Estava presente uma imensa multidão. Com grande admiração todos puderam observar que sobre todo o corpo da santa ardiam enormes chamas sem queimar nem consumir absolutamente nada, nem roupas nem cabelos. Por fim, entre raios e trovões uma grande tormenta apagou o fogo e dispersou a multidão. Santa Tecla tranqüilamente caminhou à casa de Onesiforo, onde se encontrou com São Paulo e outros cristãos.

Afresco representando o martírio de Santa Catarina de Alexandria. Catedral de Le Puy (França)
* Ano 231. Santa Cecília. Foi condenada pelo governador romano durante á perseguição decretada pelo imperador Alexandre-Severo. Meteram-na num grande caldeirão, seco. E o caldeirão foi colocado sobre o fogo, para que a santa morresse assada até secar como pedra. Santa Cecília ficou no caldeirão abrasador durante todo o dia e durante toda á noite... até que terminou a lenha.

Então, aos atônitos carrascos e ao irritadíssimo juiz, a santa comentou que foi um “banho” deliciosamente refrescante! O caldeirão, na realidade, estava tão quente que o carrasco não conseguiu aproximar-se o suficiente para cumprir com perfeição a ordem de decapitação. Após três golpes de espada mal desferidos na cabeça, deixaram-na dessangrando-se no caldeirão, enquanto a mártir exortava as numerosas pessoas presentes a seguir á doutrina de Cristo. Por fim, de joelhos, ofereceu sua morte a Jesus, e caiu morta.

Num excelente trabalho de pesquisa realizado por Dom Guéranger foram apresentadas provas irrefutáveis da historicidade desses fenômenos SN no martírio de Santa Cecília, contra as fúteis dúvidas lançadas aprioristicamente por alguns racionalistas do século XIX.

* Por ser parecido, escolho um caso bem posterior:

Século XIV. Num dos seus freqüentes desmaios (chamados êxtases, com pretensão de elogio, indevida como veremos oportunamente), Santa Catarina de Siena caiu sobre uma comprida fogueira, onde estava assando frangos para numerosas freiras.

Quando chegou a hora de servir os frangos no refeitório, uma das irmãs foi ajudar... Vendo Santa Catarina estendida sobre o fogo, gritou apavorada, certa de que a santa estava morta. Acudiram outras religiosas: o fogo ardia forte embaixo, aos lados, sobre todo o corpo da santa. Conseguiram retirá-la: estava completamente ilesa, tudo perfeito, nem manchada a roupa. Quando acordou, teve um único comentário: “O Senhor vela sobre os simples: eu fraquejava e Ele me salvou” (Sl 116,6).

* Voltemos ao início do cristianismo:

Ano 305. O governador de Siracusa mandou cobrir abundantemente com piche, óleo e resina o corpo da jovem Luzia, e assim atear fogo na lenha empilhada ao redor. A jovem permanecia em pé, impassível, sem nem sequer chamuscar-se ou as suas roupas, no meio daquela violentíssima fogueira. Santa Luzia exortava a todos a serem cristãos, só Cristo era o verdadeiro e único Deus, e “Senhor também do fogo”.

ARDE E NÃO CONSOME. Século III. O imperador romano Maximino II reunira os cinqüenta melhores sábios do império para discutir com Santa Catarina de Alexandria. Não só não conseguiram refutar os argumentos contra o paganismo e a favor do cristianismo, senão que, com grande admiração e convencidos por tão milagrosa sabedoria, os cinqüenta luminares, junto com muitíssimos dos assistentes ao debate, se converteram à doutrina de Cristo.

Quando o imperador tomou conhecimento do fato, irritadíssimo mandou que oferecessem publicamente sacrifícios aos deuses do império, ou pagariam com a vida. Os sábios romanos, assim como Porfírio, que era o chefe da primeira legião, duzentos soldados e a própria imperatriz morreram na fogueira. Também Santa Catarina de Alexandria alcançou assim o martírio, mas o fogo não consumiu nem sequer chamuscou o corpo da santa, inclusive as roupas e os cabelos ficaram íntegros (Em outra oportunidade aprofundaremos o tema das relíquias).
Estátua de Minerva. Pallas Minerva, da mitologia latina, corresponde na mitologia grega à deusa Pallas Atena. Era considerada, com Júpiter e Juno formando parte da tríade máxima dos deuses. Museu do Louvre, Paris
A ESTÁTUA DE MINERVA. Muitos autores, racionalistas e seus seguidores, os mesmos que parecem sofrer de gravíssima alergia inclusive ao conceito de milagre, esses mesmos autores muito suspeitosamente sentem-se deliciados em contar repetidamente o caso da “estátua de Minerva”.

Os habitantes da antiga cidade Fímbria atearam fogo à cidade inimiga Ílio. Toda a cidade sucumbiu. Numa praça, porém, os ilienses encontraram incólume a estátua de Pallas Minerva. O fato foi perpetuado em medalhões.

– Evidentemente concordo aqui com os racionalistas e seguidores em que aquele “prodígio”, apesar do entusiasmo dos antigos habitantes de Ílio, não é milagre devido ao poder de Minerva. Mas daí a pretender que o caso bíblico (que referimos no artigo No. 6) de Sidrac, Misac e Abdênago passeando na fornalha à que Nabucodonosor mandou joga-los (Dn 3,13) seria igual...! “Se não fosse mito”, dizem, pois eles só admitem a dúvida, se tanto!

Nada há de misterioso ou de muito especial em que uma estátua de mármore, isolada numa praça, sem matéria comburente ao redor, não tivesse sido destruída pelo fogo... Misterioso seria que o tivesse sido!

Os ilienses talvez só dessem importância, como qualquer pessoa sensata poderia fazer, como os “modernizados” só consideram no milagre, simplesmente ao simbolismo de ter ficado “altiva” a estátua da deusa em meio aos escombros da cidade...

Para os racionalistas e seus seguidores, o caso de Pallas Minerva virou um “trunfo” sempre exibido. Ridículo trunfo!

* A igreja de Rennes foi completamente consumida pelo fogo. Apesar de o ataúde e a mortalha de São Melânio serem muito comburentes, foram ás únicas coisas não afetadas pelo incêndio.

*** É claro que os racionalistas e “modernizados”, se conhecessem o fato ou alguém o contasse a eles!, dirão que foi casualidade, como o caso da estátua de Pallas Minerva.

-- Como espécie de resposta, não posso menos que sorrir com desprezo dessa objeção. Posso até conceder que certos fatos especialmente providenciais precisam ser analisados com um olhar especial. Mas os fatos SN são claríssimos. Por todo o conjunto, o caso dos restos mortais de São Melânio, e muitos outros casos semelhantes!, não se encaixam numa simples... casualidade! Madeira do ataúde, lençóis, e tantos outros objetos altamente comburentes e rodeados de objetos que se consumiram pelo fogo, não são iguais a uma estátua de mármore isolada de tudo... Supranormal é a única explicação que, na realidade, pode apresentar quem conheça Parapsicologia para este e tantos outros casos, alguns dos quais temos citado.

Nota:
Terminamos aqui esta primeira série sobre os milagres. Mas evidentemente devemos voltar aos Fenômenos SN, tema amplíssimo e importantíssimo. Mas temos que intercalar outras séries sobre outros temas.