"Ministério das Pensões de Guerra” contra Lourdes

Foi numa batalha, durante a Guerra Mundial. Jack Traynor tinha 24 anos quando, a metralha alcançara-o gravemente pelas costas. Um fragmento da metralha perfurou o crânio, deixando uma abertura entre dois e meio a três centímetros de diâmetro.


Quando a ambulância carregada de mortos chegou, o médico constatou que Jack Traynor ainda respirava. Só recuperou a consciência cinco semanas mais tarde. Disseram-lhe então que os médicos haviam realizado uma complexa cirurgia no cérebro, e que inclusive  conseguiram retirar-lhe um estilhaço de granada.

Quase um ano depois o militar Jack Traynor volta ao campo de batalha. E uma rajada de metralhadora o alcança. Só será encontrado ao anoitecer. Inconsciente. Moribundo. Perdera quase todo seu sangue. Duas balas no peito atravessaram os pulmões.
Apesar de muitos esforços e quatro operações cirúrgicas, só foi possível aos médicos evitar a morte eminente.

Quinta operação cirúrgica, e segunda trepanação. E piorou: surgiu violenta epilepsia. As crises epiléticas continuaram, numa média de três por dia, às vezes seguidas de perda dos sentidos até por 12 horas. Assim, o “Ministério das Pensões de Guerra”, da Inglaterra, declara Jack Traynor “grande inválido de guerra” e lhe assina “pensão de 140%”  porque precisava dia e noite de enfermeiras.

Sete anos sem caminhar, ficando sempre em cama, Jack Traynor perde o controle para mover as pernas, e termina também por perder nelas absolutamente a sensibilidade. Está esquelético.

Oito anos depois não se apresenta ao médico chefe do “Hospital de Incuráveis”, para a revisão anual obrigatória dos pensionistas de guerra.

É que Jack Traynor, desobedecendo todos os conselhos de médicos e familiares que temem que não resistirá a uma viagem de 1.600 quilômetros, faz-se levar a Lourdes.

Bento XVI na gruta de Lourdes

Os médicos da peregrinação de Liverpool a Lourdes, a duras penas consentem em admiti-lo, em todo caso não sob a responsabilidade deles. E na viagem continuamente temem pela sua vida.

A peregrinação chega a Lourdes. No “Posto de Constatações Médicas” de Lourdes, onde os doentes devem ser examinados antes de irem às piscinas, o Dr. A. Vallet faz constar:  “Este homem é, ele sozinho, um verdadeiro museu patológico”.

Com dificuldade o Dr. Vallet termina por ceder às súplicas de autorização para que os padioleiros molhem um tanto  Traynor numa das piscinas. Dramático espetáculo gritando de dor ao contato com a água gelada da piscina.

De tarde, estendido sobre sua padiola, Jack Traynor assiste à procissão quando um bispo vai abençoando com o Santíssimo Sacramento cada doente

Chegou a vez de Jack Traynor.  E... cura instantânea e plena.

O “Posto de Constatações Médicas” de Lourdes constata “todas as características da cura perfeita”. E desde então garante que “a cura instantânea, perfeita e permanente de Jack Traynor está absolutamente além e acima das forças da natureza”.

Nos escassos 10 dias que a peregrinação de Liverpool ficou em Lourdes, a atrofia desapareceu completamente, Traynor recuperou todo seu peso e as forças correspondentes a um homem da sua idade, 32 anos. E como é típico em Lourdes, ficou “a marca” para toda a vida: nota-se ao tato uma pequeníssima ondulação nas bordas do que fora orifício craniano.

As reações são muito diferentes:
-- As duas jovens protestantes, anglicanas, que acompanhavam Jack Traynor como enfermeiras na peregrinação e em Lourdes, converteram-se ao Catolicismo.

-- E as famílias das duas enfermeiras também.

-- Em Liverpool o pastor anglicano da Paróquia de ambas as jovens também se converteu ao Catolicismo e quis ser sacerdote católico (mas por estar casado e com filhos, a hierarquia católica considerou prematuro este seu desejo de exercer como sacerdote).
          
-- Etc.

-- E a reação mais... racionalista, por não dizer que absolutamente imbecil, parafrênica (=loucura localizada), a do “Ministério das Pensões de Guerra” da Inglaterra: Jack Traynor conscienciosamente apresentou-se às autoridades competentes para renunciar à sua “pensão de inválido total e incurável de guerra”. Mas... continuou durante toda a sua vida recebendo 140% de pensão, porque o “Ministério das Pensões de Guerra, da Inglaterra, não aceita a cura de grande inválido incurável”.

Traynor depois da cura teve três filhos perfeitamente sadios. Em Liverpool trabalhou durante 20 anos como carregador de caminhões.

Como anualmente fazem outros militares, por agradecimento,

Jack Traynor voltou a Lourdes três vezes por ano, durante 22 anos, para agradecer. E trabalhava em Lourdes como um dos mais robustos padioleiros voluntários.
Até sua morte em 1943, com 64 anos de idade, por uma hérnia estrangulada por um esforço violentíssimo como carregador de caminhão.