Pode haver milagres?
DESORIENTAÇÃO INICIAL. Nada menos que de Santo Agostinho. No começo das suas reflexões, sua prodigiosa inteligência esbarrou na dificuldade de explicar, naquela época! certos fenômenos parapsicológicos humanos, dentre os que hoje classificamos como EN (Extra-Normais) e PN (Para-Normais). E por esta dificuldade, os fenômenos que hoje classificamos como SN (Supra-Normais, Sobre-Naturais, milagres), Santo Agostinho, com diversas e sucessivas idéias erradas, os englobou durante algum tempo entre os fenômenos humanos. Nessa fase do seu pensamento o santo bispo de Hipona, no Livro Segundo, Capítulo 55 do seu tratado “Contra Litteras Pelagii” considerava que verdadeiros milagres só teria havido numa época de transição. Julgava os milagres uma concessão à debilidade dos inícios do cristianismo. Só nos inícios. Relegava os milagres ao último plano entre os valores relacionados com a religião. Depois, o cristão “é tanto mais forte quanto menos os procura” (E em quê se fundamentaria o cristão para ter uma fé adulta, racional, para com certeza escolher entre 56.000 religiões?).

Desde Santo Agostinho, esse desconhecimento de Parapsicologia, impossibilitando separar EN, PN e SN, mesmo que só fosse em teoria sem garantir a real existência, foi precisamente, não exclusivamente, o que desnorteou até hoje muitíssimos teólogos, filósofos e cientistas de observação.

*** “Também os maus poderiam operar milagres”, disparatava Santo Agostinho. Acreditava, no começo das suas reflexões, que junto aos milagres de Deus, havia outros milagres devidos a outras forças sobrenaturais. Agiriam pelos chamados magos, pitonisas, médiuns, bruxos, endemoninhados etc.

No Livro 21 do tratado “De Civitate Dei”, Sto. Agostinho chegou a contrapor (e quantos depois dele repetem tal erro!) que “muitos que expulsam demônios (Não há possessões nem, consequentemente, expulsões, como demostramos em outros numerosos artigos), que têm esse poder de milagres (?!), não pertencem ao reino de Deus; enquanto que outros muitos que pertencem não fazem tais coisas”.

--- Respondo. Não se pode duvidar que os magos, feiticeiros, bruxos, satanistas e tantos outros exorcistas evangélicos que faziam –e fazem– esses prodígios que Santo Agostinho naquela sua fase considerava milagres, “não pertencem ao reino de Deus”, são esotéricos supersticiosos e hereges.
Por sugestão faz que alguém se ache “endemoninhado”. Por sugestão cunde o contágio. E ele fica feliz... de sua senvergonhice

Como também não se pode duvidar que a maioria, “outros muitos que pertencem (ao reino de Deus) não fazem tais coisas”.

Sem Parapsicologia, o tema do milagre esbarra em meras suposições. Sem Parapsicologia, o que seria milagre ou fenômeno SN o confundem com manifestações EN e PN. No plano meramente teórico, obnubilados por preconceitos ou dificuldades meramente teóricas. Porque com referência à realidade a diferença é claríssima.

*** Santo Agostinho naquela etapa errada do seu pensamento “argumentava” assim:

“Os demônios puderam aperfeiçoar a arte dos magos, que a Sda. Escritura chama feiticeiros e encantadores, a ponto de mudar os sentimentos humanos, como parece que quer dizer o nobre poeta Virgílio falando de uma mulher, grande mestra nessa arte: ‘Ela promete sanar as mentes (Isso seria exato, “sanar as mentes”; isso seria a realidade e não expulsões pela arte que teriam ensinado os próprios demônios, espíritos maus, etc.), com seus encantamentos, à vontade, ou enviar-lhes amargas inquietações. (Feitiço. Na série sobre “DEMONOLOGIA” já expus a verdadeira explicação do que seria “A EFICÁCIA DO FEITIÇO”), parar as ondas dos rios ou inverter o curso dos astros. (A quão grandes disparates levam o preconceito de acreditar no poder dos demônios, espíritos de mortos, exús, orixás etc.!). Ela evoca os manes tenebrosos: ‘A terra mugirá sob seus pés e verás os peixes descer das montanhas!’. Se é assim (Claro que não!), oh! muito mais Deus é poderoso para realizar os prodígios que parecem incríveis aos infiéis e que não passam de brincadeiras para Seu poder infinito?”.

--- Respondo. Mas a Parapsicologia (como já vimos e ainda veremos numa nova série mais elaborada sobre DEMONOLOGIA) demonstra que é falsa a premissa (que os demônios ou “manes tenebrosos” etc. tivessem ensinado a certas pessoas um maravilhoso domínio das forças da natureza). Portanto a conseqüência (muito mais Deus poderia ensinar a alguns homens...!), como tal, não tem valor nenhum.

E além disso, Santo Agostinho naquela fase, e os seus seguidores, estão confundindo força superior à natureza (SN, Supra-Normal, Superior à Natureza), com uso das forças da natureza pela Divina Providência, ou que pessoas especiais em alguns casos manifestariam. O milagre é uma força superior, não é uso das forças naturais, não é mera arte, mera técnica, que se pudesse ensinar.

“NÃO SE SABE O QUE A NATUREZA PODE”. Vimos no artigo anterior que com esse preconceito (ou má intenção), a partir de Spinoza, muitos racionalistas, agnósticos, teólogos protestantes liberais e mesmo teólogos católicos “modernizados” até hoje pretendem negar a possibilidade e a utilidade do milagre.

“MAS SE SABE O QUE NÂO PODE”. Basta isso para refutar a objeção. Evidente. Dizia um grande parapsicólogo, o Pe. Ludovico Macinai: “Aquela objeção do incrédulo não só é estúpida, senão que implicitamente contém um absurdo. Atribui às coisas uma natureza contrária à que de fato têm. Supõe que, permanecendo as coisas aquelas que são, possam produzir efeitos superiores ou contrários à sua capacidade. Se alguém nos viesse a dizer que das pedras brotam flores, ou que as árvores caminham e pensam, acreditaríamos certamente que estávamos a ter com um doido. Tanto é absurdo o que se diz, e em contradição com a natureza das pedras e das árvores. Pois quem atribuísse os verdadeiros milagres às forças da natureza não diria um absurdo menor”.

Muito antes já apresentava a mesma resposta Santo Agostinho, após haver superado seu período de desorientação: “Todo o curso da natureza tem suas leis certas naturais (...). Os elementos deste mundo (...) têm um poder definido e uma definida qualidade, pelos quais se determina aquilo para o que valem e para o que não valem, o que podem e o que não podem”.
Pe. José Maria Riaza S.J. (Cfr. texto)
Perante certos fatos, superiores e também diferentes das forças da natureza, há que deduzir, com certeza, que embora invisível lá interveio uma outra Força Superior. Escrevia com lógica irretorquível o Pe. José María Riaza S.J., meu saudoso e muito estimado professor na “Universidade de Comillas” (Espanha): “Pode acontecer que não seja possível marcar com precisão matemática o limite entre duas nações, não obstante todos sabem com certeza que a França não chega até Roma”.

BASTARIA UMA ÚNICA LEI. Entre tantíssimos fatos SN, milagres, estou me concretizando agora à classificação “CONTRA NATURAM” (“Contra ordinem consuetum naturae”), ou “QUOAD SUBJECTUM” (“Naquele por quem ou pelo que foi realizado” o prodígio).

Em muitos casos concretos basta conhecer algumas leis concretas para saber o que a natureza não pode. Sabemos sem lugar a dúvidas que, segundo uma lei universal e necessária, a natureza (nem espontaneamente nem com a técnica humana), não pode fazer que retorne à vida um morto, certamente morto. Sabemos com certeza que por uma lei universal e necessária, a natureza (nem espontânea nem artificialmente), não pode fazer que uma chaga inveterada sare perfeita e imediatamente. E muitíssimas outras leis concretas.

Já no século XVII o grande sábio Blásio Pascal, matemático, físico e filósofo, convertido do jansenismo ao catolicismo precisamente pelos milagres que observou e estudou, dedicou amplas páginas a provar e explicar a irretorquível conclusão: “O milagre é um efeito que excede a força natural dos meios que se empregam”. Pode bastar uma única lei bem conhecida... “Não é necessário conhecer todas as leis da nação, nem todos os artigos do código, para afirmar com certeza que o homicídio voluntário constitui uma infração da lei. Também não é necessário conhecer todos os recursos da natureza para saber que com um pouco de saliva não se cura um cego de nascença, e que com uma simples palavra não se faz sair do sepulcro um cadáver”.
Desenho singelo do grande milagre, por Cristo, da cura do cego de nascença
POR EXEMPLO COM A ÁGUA. A ciência moderna, após as pesquisas do grande físico inglês lorde Rutherford, conhece a química das transformações. Mas nas Bodas de Canã, evidentemente Jesus não dispunha desses grandes e complicados instrumentos... Sabemos com certeza que uma simples palavra não transforma instantaneamente uma grande quantidade de água em igual quantidade de excelente vinho. Para isso é preciso Outra Força...

“Houve um casamento em Canã da Galiléia e a Mãe de Jesus estava lá (...). A Mãe de Jesus Lhe disse: ‘Eles não têm vinho’ (...). Sua Mãe disse aos serventes: ‘Fazei tudo o que Ele vos disser’”.

“Havia ali seis talhas de pedra para a purificação dos judeus (entre 80 e 120 litros) (...). Jesus lhes disse: ‘Enchei as talhas de água’ (...). Quando o mestre-sala provou da água transformada em vinho (...), disse: ‘Tu guardaste o bom vinho até agora!’”.

“Este início dos sinais, Jesus o fez em Caná da Galiléia e manifestou a Sua glória e os Seus discípulos creram n’Ele” (Jo 2,1-11).

--- Reflexão. Sinal, sim; mas não no sentido meramente subjetivo, como disparatam muitos teólogos liberais e “modernizados”, senão como fato que indiscutivelmente sinaliza o poder de Deus. De Cristo, e por isso “Seus discípulos creram n’Ele”.

Não dizem que o milagre é sinal? Sinal de que ou de quem? Isso só poderemos saber após a verificação e análise dos fatos, só após a análise do tipo de ambiente, religioso ou não, para verificar de qual ser sobrenatural o fato Supra-Normal seria realmente “assinatura” e, consequentemente, de qual fé, entre tantas religiões e superstições seria sinal, incentivo ou confirmação. Só após do estudo é que essas e quaisquer outras qualidades poderiam ser acrescentadas. A posteriori. Sem apriorismo. E num segundo passo.
Detalhe da pintura por Veronese a respeito das Bodas de Canã
OS DISCÍPILOS IMITAM SEU MESTRE. Um pouco de “efeito bumerangue”, no mesmo tipo de classificação:

Século VI. CERVEJA -- Santa Brígida, célebre abadessa, padroeira de Irlanda. Um grande grupo de trabalhadores só tinha água para beber. Santa Brígida levantou os olhos ao céu e fez o sinal-da-Cruz sobre o tanque de água. À vista de todos, as águas foram espessando-se um tanto e trocando de cor. Todos verificaram que se tratava de excelente cerveja.

Século VII. VINHO, LEITE E MEL – São Molua de Irlanda, abade. Uma vez mandou aos seus cansados monges: "Ide e enchei os recipientes com água da fonte”. Tendo feito isso, a água se transformou em leite com sabor de mel e efeitos do vinho.

Século XI. PÃO -- Santa Cunegunda, imperatriz de Alemanha, faleceu em 1040. Os pobres que ela costumava atender quando viva, depois acudiam ao túmulo. No processo de canonização se comprovou que “muitas vezes o pó retirado do seu túmulo converteu-se em pão”.

Século XII. VINHO – São Bennon, visitando uma vez, como costumava, os agricultores, vendo que, cansados pelo trabalho, sofriam veemente sede, movido pela compaixão, converteu a simples água que iam beber em excelente vinho.

Século XIII. “O MELHOR VINHO” -- Um dia, estando ausente seu marido, Santa Isabel, jovem duquesa de Hungria, comia sozinha sua pobre refeição composta de pão seco e água. O duque, chegando de improviso, quis, como mostra de carinho, beber do mesmo copo, e encontrou, para sua grande surpresa, um líquido que lhe pareceu ser “o melhor vinho que se poderia beber no mundo”. Perguntou então ao copeiro donde o tinha tirado, e este respondeu que servira à duquesa unicamente água!

Etc., etc. “Muitas Vezes”, inclusive com referência a um santo só.

“FATO SUPERIOR ÀS FORÇAS DA NATUREZA”. Voltemos ao distintivo geral. a recisamente diferenciar “o que a natureza pode” e “o que não pode”, onde é que acaba a natureza e começa o milagre, é o objetivo último e um dos principais frutos da Parapsicologia. Muito acertadamente Robert Amadou, um dos mais completos parapsicólogos contemporâneos e de grande autoridade, presidente do “Institut de Parapsychologie” da França, diretor da “Revue Métapsychique” até 1955, etc., define a Parapsicologia como a ciência que tem por finalidade diferenciar o verdadeiro do falso milagre. E acrescenta: “O mérito da Parapsicologia é por uma parte proteger-nos contra as superstições, e por outra parte convencer-nos de que (...) o sobrenatural não se reduz aos seus reflexos inferiores, de que a sombra não é a realidade, e que o homem, e menos ainda a natureza, não é Deus”.

*** Séculos de campanha do racionalismo, agnosticismo, positivismo, ateísmo, liberalismo...; à exagerada atenção prestada ao modernismo; atrever-me-ia a dizer que um certo complexo doentio perante as ciências de observação, fez com que hoje em quase todas as Faculdades de Teologia do mundo se renunciasse a falar dos milagres como tais, ou como máximo insiste-se erradamente só nas circunstâncias extrínsecas do que seria somente aparente milagre.

--- Respondo. Assim não se resolve o problema, foge-se dele. Foge-se de um problema secular. Um problema fundamental! Importantíssimo!

É cientifico, é humano, é necessário, é urgente enfrentar diretamente o estudo de determinados fatos mais maravilhosos. E para afirmar ou para negar há primeiro que estudar. Parapsicologia.

*** A maioria, indevidamente vitoriosa na secular polêmica sobre os milagres, objeta: “Em razão desta identificação do milagre com o prodígio, os espíritos contemporâneos foram conduzidos a rejeitar em bloco a existência mesma dos milagres”. A frase reflete o parecer quase unânime da Teologia atual. Corroborado com enorme aceitação por “Um Inquérito Renovado” que tinha por título: “Palavra de Deus”. Trata-se de exposições pretendidamente magistrais de grandes teólogos, que se auto-consideram especialistas no milagre. Sob a direção do famoso teólogo jesuíta Pe. Léon-Dufour.

--- Respondo. Não duvido que sejam grandes teólogos, no seu campo específico de teólogos: doutrina sobrenatural, inobservável, a partir da Revelação. Do que duvido, ou melhor: também não duvido que não são nem grandes nem sequer medíocres especialistas no milagre. Nisto são péssimos cientistas: falam de fatos sem haver estudado os fatos!

O estudo dos fatos (Inclusive o estudo de se é ou não é fato que houve Revelação; o estudo de se é ou não fato que se deve a Deus e não a qualquer outra entidade ou se é mera invenção humana entre tantas religiões), não pertence à Teologia. Como fatos extraordinários e em quanto fatos pertencem à Parapsicologia. Estes fatos, porém, deveriam interessar fundamentalmente a todos os teólogos.

*** É assim que o teólogo Christian Duquoc (do aludido “Inquérito Renovado. Palavra de Deus”) diagnosticava a situação atual: “O prodígio, ou o milagre, não pode passar de um luxo metafísico, do que não temos nenhuma necessidade de nos embaraçar para viver cristãmente. Os dados prodigiosos do Novo Testamento relevam mentalidades que nos são estranhas; nossa tarefa é reafirmar isso que sem cessar é negado subtilmente: a verdadeira humanidade de Jesus até a morte”.

--- Respondo. Na realidade, sim, são terríveis “luxo metafísico” essas afirmações do bom teólogo em tema de Teologia, mas péssimo cientista ao falar do milagre sem estudo dos fatos!

Na realidade, “do que não temos nenhuma necessidade de nos embaraçar para viver cristãmente” é das aéreas disquisições e sutilezas dos teólogos “modernizados”. Sem milagres, a Revelação não teria credenciais para ser aceita racionalmente. Não haveria fundamento “para viver cristãmente” em vez de viver agnosticamente, ateamente, epicureamente..., ou pagãmente, budisticamente, espiriticamente... Entre 56.000 religiões registradas.

Budismo, Catolicismo, Umbanda... Incrível a miscelânea que muitos brasileiros fazem de religiões e seitas, na realidade incompatíveis
Na realidade, negando os milagres, o que os racionalistas e seus sequazes pretendem negar com maquiavélica sutileza, repetida no cúmulo da ingênua “irreflexão teológica” pelos “modernizados”, é que junto “à verdadeira humanidade” existisse a divindade em Jesus Cristo. Na realidade nesses teólogos “modernizados” seria infantil, irracional, inumano aceitar sem credenciais, sem milagres, a divindade de Jesus Cristo.

E é precisamente porque na definição não fica abertamente incluído o caráter sobrenatural, Supra-Normal (SN) do milagre, ou porque é negado com sutileza, que a “Delegação Romana” reclama contra os autores do “Catecismo Holandês”, que ao menos neste ponto disfarçam o preconceito e o erro dos teólogos “modernizados”. Diz a “Delegação Romana” expressamente: O ”Catecismo Holandês” tende a excluir que um milagre possa superar as causas, talvez desconhecidas, que agiriam na ordem natural (...). Deveria sustentar que (o milagre) é além de todas as forças que estão presentes na natureza”.

SUPRANORMAL. Mas apesar dessas reduções, a discussão está bem centrada. A Parapsicologia concorda, para estabelecer o conceito e iniciar a pesquisa. E devemos guardar essa característica fundamental que flutua na definição de milagre. Um acontecimento que excede às forças da natureza, que não tem explicação natural. É causado, portanto, por Outra Força, diferente de nosso mundo, agindo no nosso mundo.
Esta característica é precisamente o que a Parapsicologia quer frisar com o termo Supra-Normal (SN). Para falar-se em milagre, para poder-se de início admitir a possibilidade, por mais remota que possa parecer, de que o fenômeno se deve a força diferente do nosso mundo tem de ser claramente superior à natureza, na terminologia da Parapsicologia, que distingue entre Extra-Normal (EN), Para-Normal (PN) e Supra-Normal (SN).

*** Na expressão errada ou ao menos muito imprecisa do conhecidíssimo teólogo francês Léon Dufour, o milagre seria no máximo uma intensa ação da natureza (diríamos, um notável fenômeno parapsicológico humano): “Quanto mais atua Deus (no que eles chamam, indevidamente, milagre), mais atua com intensidade a criatura ela mesma”.

--- Certamente não. Aquele fenômeno, precisamente porque seria devido a uma “mais intensa atuação da natureza”, pode ser Extra-Normal e Para-Normal, mas não seria Supra-Normal. Não: “mais atua Deus”, senão: “menos atua Deus”. É que para ser teólogo (”modernizado”) há que ser de inteligência totalmente míope?

-– A disquisição modernista de sinal e prodígio mais ou menos admirável, mas natural, rejeita-a nada menos que o maior dos parapsicólogos (se na sua época existisse esse nome), Próspero Lambertini ou Bento XIV. Para poder-se falar em milagre, o fato deve superar de alguma maneira o natural. Tratando-se de forças da natureza, poder-se-ia, no máximo, falar em Divina Providência especial (a “Quarta Classe” de milagre): se Deus as utiliza de um modo que só Ele pode, como dono; mas não em milagre propriamente dito. Ou são milagres ou não são. Em si mesmas “as coisas naturais não podem ser sinais de ações sobrenaturais. Nem pode achar-se razão alguma de milagre naqueles sinais que ao menos quanto ao modo não sejam sobrenaturais. Do contrário seriam sinais ambíguos (como provas de sobrenaturalidade), pois (...) poderiam surgir de (...) causas naturais”.

Por isso, um grande pensador moderno, o eminente biólogo Cuénot, inicialmente dá uma lição aos teólogos, filósofos e cientistas modernistas definindo o milagre amplamente com uma cláusula suspensiva para um segundo passo. “O milagre na sua verdadeira acepção é um fenômeno exteriormente verificável, sempre extraordinário e inesperado, que faz por sua estranheza provocante um contraste tão nítido com a ordem habitual da natureza que se tende a atribuí-lo a uma Potência diferente do mundo, por exemplo, o Deus dos cristãos ou dos espiritualistas (...). As religiões de todos os tempos tiveram seus milagres (...) como um argumento do sobrenatural (...) destinado a provocar ou confirmar a fé”.

--- Essa expressão “se tende a atribuí-lo...” poderia traduzir-se como “oferece a possibilidade”, “possivelmente” divino, ou espírita, demoníaco ou de qualquer religião... Cabe à ciência, num primeiro passo verificar se esse fato aparentemente sobrenatural é na realidade sobrenatural. E num segundo passo verificar de qual ser sobrenatural o milagre é realmente “assinatura” e, consequentemente, de que fé, entre tantas religiões, é incentivo ou confirmação. É evidente que Deus não pode haver revelado nem sequer duas religiões, diferentes, contraditórias... Portanto, menos uma bem “assinada” com verdadeiros milagres, claríssimos..., todas as outras religiões são inventadas. Amplo material para artigos posteriores.

O termo Supra-Normal foi introduzido na Parapsicologia por Myers (Frederic William Henry), um dos seus fundadores. “Permiti-me compor a palavra Supra-Normal (...)“ Um fenômeno (...) que excede às leis da natureza (...). Em minha opinião tal fenômeno não existe”.

--- Como se vê, ao descrever o que se entende em Parapsicologia por Supra-Normal, o fundador Myers pre-julgava e negava aprioristicamente os milagres, sem have-los estudado: Até então não estudara ainda os fatos, simplesmente estava programando o estudo, e estava num ambiente infeccionado pelos racionalistas etc. Descartemos o preconceito, fica e guardemos o verdadeiro conceito de Supra-Normal = um fenômeno que excede às forças da natureza = milagre.

Em nome de outros muitos teólogos de hoje, ingenuamente com tendências racionalistas, o jesuíta Pe. Léon-Dufour, como conclusão das exposições pretendidamente magistrais dos colaboradores escolhidos no antes aludido “Inquérito Renovado” (atendamos no momento só ao que agora interessa, a característica “efeito superior à natureza”), disparata: “Há que delimitar com rigor o que se entende por milagre. Se for verdade que o milagre consiste na transposição de um limite aparentemente insuperável, não se podem esquecer (...) as ações extraordinárias dos curandeiros, as performances dos iogues (...). Mas na realidade tudo isso depende da técnica ou da Parapsicologia. Por tanto, o critério da excepcionalidade não é válido, o de superação do impossível não é suficiente”.

--- Respondo. Antes do racionalismo e seus seguidores, durante séculos anteriores, teologia, filosofia e ciências de observação coincidiram em considerar no milagre, como essencial, que seja um fenômeno que “transponha” os extremos “limites” da natureza, que seja “inimitável pela natureza”, “superação do impossível para a natureza…”.

Mas percebe-se o impasse da teologia atual, “modernizada”, perante a Parapsicologia. Lamentavelmente ainda são poucos os teólogos que conhecem suficiente Parapsicologia. Embora alguns a citem, como o próprio Léon-Dufour. Os pesquisadores, os teólogos “modernizados” negam-se a estudar os fatos!; sem Parapsicologia, em muitos fenômenos concretos não podem nem suspeitar onde estão os limites da natureza. É possível que seja precisamente porque estão apavorados por esse desconhecimento, que se negam a estudar os fatos e fogem pela tangente com preconceitos teóricos. Irrefletidamente repetem os ataques mal-intencionados dos racionalistas etc…

*** Sem conhecimentos de Parapsicologia, a quase totalidade dos teólogos modernos deixou de lado o aspecto “superior à natureza” para cair em subjetivos “contexto religioso”, “relação a Deus”, “condições necessárias” etc.

--- Pergunto: Qual contexto religioso? De qual entre as inumeráveis religiões? Quais condições? Tudo isso é espantoso e ridículo subjetivismo. Se um fenômeno observável supera as forças da natureza, é sobrenatural (Supra-Normal, SN). É apriorismo exigir, antes da conclusão da pesquisa, que seja relacionado com Deus Único! Outros poderiam exigir que fosse relacionado com o deus budista (panteísmo), ou com algum dos inumeráveis deuses greco-romanos (politeísmo), ou com algum dos orixás e exús (suposta multidão de divindades, ou forças da natureza divinizadas), ou com os espíritos desencarnados! (Não existe alma humana sem corpo, são pessoas ressuscitadas. Tema dentro dos artigos sobre ESPIRITISMO), ou com os popularmente chamados demônios, ou com seja lá quem for!

C. P. I. dos correios, do “mensalão”, do... Mas os “exorcizados” e os “demônios” ficam com o dinheiro. E até os “exorcistas”?
Pergunta o grande parapsicólogo, o também jesuíta Pe. José de Tonquédec: Os fenômenos parapsicológicos humanos (EN e PN) “confrontados com o milagre católico (fenômeno SN) têm-se mostrado muito diferentes. Mas a que se reduz finalmente e funcionalmente esta divergência?.

A responder esta importantíssima pergunta, fenômeno por fenômeno parapsicológico, deveremos dedicar numerosos artigos.

O Pe. Tonquédec adianta: “Sem chegar a um conhecimento exaustivo, talvez seja possível descobrir ao menos a qual categoria geral de acontecimentos, o qual gênero supremo pertencem” os diversos fenômenos naturais, humanos (EN e PN) em comparação com os milagres, análogos mas muito superiores (SN).

A favor ou contra. Aqui esta a grande importância da Parapsicologia. Como disse no primeiro artigo desta que necessariamente tem que ser uma longa série, este tema é a razão principal de minha já longa vida dedicada à Parapsicologia.