Em procura da causa

“OUTRA CAUSA”. É evidente que para todos os que estudem esses casos citados (No artigo anterior) de pirovásia tão superiores aos de telergia, tanto nos defensores como nos impugnadores dos milagres, flutua o convencimento verdadeiro de que nesses casos há “outra causa... (O mesmo, como veremos, em casos muito superiores encontrados em todas as classificações de fenômenos parapsicológicos). O problema ou a discussão gira ao redor da determinação dessa “outra causa”. O grande fogo não queimar, ou se apagar sozinho num instante, ou ir retrocedendo pela matéria já consumida..., qual é a “outra causa” oculta?


A MIOPIA DOS CIENTISTAS. Todos esses fatos, como todos os fenômenos parapsicológicos, a partir especialmente do século XIX, foram e são marginalizados por quase todos os cientistas estabelecidos, no mais anti-científico apriorismo. E inclusive foram negados sem nem sequer estudá-los, tanto mais ferrenhamente negados quanto mais notáveis. São fatos aos quais, sem estudo, foi negada inclusive a possibilidade.

Mas fechar os olhos à realidade, ou mesmo à meramente possibilidade, porque incomodaria, certamente é muito cômodo, mas não é nem científico nem racional.

Em todas as classificações de fenômenos parapsicológicos, encontramos fatos certamente naturais, humanos, mesmo que só fosse por acontecerem em todas as épocas, em todos os ambientes, em todos os povos, em todas as religiões. Mas em todas as classificações há também outros muitos fatos imensamente superiores que só aparecem numa determinada época, num determinado ambiente...

Após a pirovásia, escolhamos agora, também ao acaso, outro determinado fenômeno. Saiu agora a telecinesia = movimento de objetos sem contato observável (Do grego Téle = ao longe, e Kínesis = movimento). E entre tantos tipos de objetos também ao acaso saiu campana (Ou popularmente sino). Até certo ponto A telecinesia de sinos tocando sozinhos, ou pelo contrário que seja impossível fazê-los soar, até certo ponto é análoga a pirovásia que vimos no artigo anterior: o fogo devastador apagar-se sozinho, ou que não se consiga que queime.


A Catedral de Milão, iniciada no século XIV (1386) e terminada no século XIX (1813). O “misterioso” repicar dos sinos foi no século XVII.

O BADALAR DOS SINOS. Tem de haver uma causa “oculta”. Qual? Por quê essa causa e não outra? Ai está o tema deste artigo. Novamente, para o efeito bumerangue, escolhemos os séculos ao acaso.

* Século XVII. Durante uma peste ocorrida na cidade de Milão. Na noite de 22 de setembro, enquanto os frades dominicanos cantavam as matinas no coro, os sinos do campanário da Catedral, durante algum tempo ficaram acompanhando a melodia. Comprovaram que foi “absolutamente sem que fossem tocados com mão humana”. E todos ouviram uma voz: “Mãe, eu quero que tenhas piedade do meu povo”. Interpretaram que fosse o poder de Jesus Cristo a tocar os sinos e que seria a voz do mesmo Jesus Cristo pedindo à Sua Santíssima Mãe que livrasse o povo da peste. De fato a peste foi diminuindo, e no fim do ano estava praticamente extinta.


Completamente absurda a interpretação dada pelos frades. Em primeiro lugar, não é Cristo a pedir à Sua Mãe Santíssima que Ela faça um milagre. Seria Nossa Senhora a pedir, ou mesmo como mãe à “mandar” ao Seu Filho Jesus que Ele faça, e o Filho “obedece”.

Em segundo lugar, nenhum verdadeiro especialista ia considerar milagre que a peste diminuísse paulatinamente durante mais de três meses. O milagre de cura tem que ser rapidíssimo, para não se poder atribuir às forças da natureza.

Terceiro: todo verdadeiro especialista em Parapsicologia sabe que a poucos metros de distância, não mais de 50m, a telergia das pessoas pode fazer soar os sinos. Telecinesia humana, EN (Extra-normal), termos que os internautas conhecem do artigo anterior e de outros vários. Foi precisamente quando os freis estavam no coro, muito perto do campanário...

Quarto: E também um verdadeiro especialista em Parapsicologia sabe que a telergia pode fazer vibrar o ar, a menos de 5Om, em forma de vozes: psicofonia (Psijé = psiquismo, e foné = voz). Nesse caso de Milão, psicofonia vulgaríssima: umas poucas palavras.

Quinto: A absurda interpretação de ser a voz de Jesus dirigida à Sua Mãe Santíssima claramente está mostrando a prosopopéia (Do grego prósopon = máscara) com a que o inconsciente disfarça sua psicobulia ( Bulia = vontade, e psijé. Desejo do psiquismo inconsciente). De alguém dos presentes, ou de vários em efeito polipsíquico (Polís = vários, e psijé). Casos de todo tipo de telecinesia e psicofonia, inclusive em dimensões um pouco maiores que o de Milão, acontecem em todas as épocas, em todos os povos, em todos os ambientes, em todas as religiões ou independentes de conotação religiosa.
Em fim, para razoavelmente poder-se considerar a hipótese de fenômeno supra-normal, SN, milagre, além de sem contradições!, teria que tratar-se de um fenômeno de dimensões muito maiores e com características bem diferentes do natural. É evidente que se Deus permitisse que se falsifique Sua “assinatura”, o milagre ou “assinatura” divina, nada serviria

“BEM DIFERENTE”. * Século XII. O bispo São Aldebrando havia entregue à catedral de Fossombrone (Itália) um conjunto de sinos. Vencedores, porém, na guerra, os habitantes de Jano roubaram os sinos e os levaram para sua cidade. “Eu dei esses sinos para o serviço do meu próprio povo, não dos seus inimigos”, disse o santo, e mandou em nome de Deus que os sinos permanecessem mudos. Os habitantes de Jano não conseguiram de maneira alguma fazê-los soar.

Estupefatos, os habitantes acabaram decidindo devolver os sinos à catedral de Fossombroni. Assim que chegaram à ponte sobre o rio do Metauro, perto da catedral, todos os sinos badalaram sozinhos por um bom tempo.

Os fatos (Como todos os que citamos nestes artigos) são garantidos nada menos que pelos Bolandistas (Assim chamados em homenagem a um dos seus diretores, Padre Jean Bolland), grupos numerosos de historiadores jesuítas, que há quase cinco séculos, subvencionados pelo Governo da Bélgica, vem pesquisando a agiografia. São os historiadores de maior prestígio no mundo.

– Em primeiro lugar, nem pensar na telergia, humana, natural, de São Aldebrando sobre os sinos, quando estes já estivessem à distância.

Em segundo lugar, ninguém que conheça um mínimo de Parapsicologia lançaria a descabida hipótese de atribuir os fatos a telergia de alguém do povo de Jano. Acompanhando de perto os sinos, ida e volta, talvez impressionado pela ordem do santo, conseguiria segurar todos os badalos de todos os sinos? Durante todo o tempo?! Contra o esforço muscular dos que intentavam fazê-los soar?! E depois, já entregues aos seus donos, à distância, conseguiria que voltassem a soar?

O fato certamente exige outra causa “bem diferente...” Qual?

“DIMENSÕES BEM MAIORES” * Século XII. Uma multidão se preparava para acompanhar o traslado, do cemitério ao interior da catedral, dos restos mortais de São Isidro Labrador. O padroeiro de Madri havia morrido quarenta anos antes. Era ao entardecer, quando abriram o túmulo. Logo o clamor e a emoção percorreram todos os presentes: o corpo de São Isidro estava completamente incorrupto, e um indescritível aroma espalhou-se pelo ambiente (A incorrupção será analisada com detalhe em outra série de artigos). A emoção foi tanto mais profundo quanto que todos, ao redor da catedral como na cidade inteira, no mesmo instante em que foi aberto o túmulo de São Isidro, ouviram todos os sinos de Madri a badalar alegremente sem que ninguém os tocasse. E alegremente badalando sozinhos continuaram durante toda à noite.

* Século XIII. Os preâmbulos foram dramáticos. Já haviam passado muitos anos desde que em 1208 o papa Inocêncio III pedira uma Cruzada contra os hereges albigenses (Gnósticos mais satanistas que cristãos) ou cátaros (= puros, pois se auto-consideravam os únicos sem pecado). Esses hereges haviam assassinado inclusive Pierre de Castelnau, delegado papal e vingativo defensor dos católicos contra os perseguidores albigenses nos domínios do conde Raimond IV, de Toulouse. Os cruzados católicos, às ordens do espanhol Simón de Monfort (Que pereceu na batalha de Muret, em 1213), e apesar da oposição do rei de Aragón (Espanha), massacraram os albigenses em sucessivas batalhas.

O palácio papal, em Avignon (França), onde foram residindo sete papas, de 1309 até 1378


Pereceram até talvez 40.000 cátaros albigenses (Assim chamados por residirem principalmente na cidade de Albige, perto de Toulouse, no sul da França). A cidade foi conquistada pelos católicos em 1226. O esperançoso tratado de paz, sob a regência de Blanca de Castilla, firmado em 1229 em Paris, na realidade pouco durou. Porque os albigenses se vingavam assassinando católicos por todas partes; inclusive um bando de cem homens, organizado em 1242 pelo meirinho de Raymond VII, assassinou os onze inquisidores católicos de Avignon. Recrudesceram as mortes de milhares de pessoas, albigenses e católicos. O bando dos cem justiceiros albigenses foi oficializado. Até que em 1283, pela ação religiosa e diplomática do papa Alexandre IV, o bando de justiceiros foi dissolvido e reinou a paz. Inclusive de 1309 até 1378 sete papas residiram em Avignon.

A importância da intervenção de Alexandre IV foi sublinhada por uma grande maravilha: Os sinos de todas as Igrejas de Avignon, que estiveram em silêncio durante quarenta anos de lutas fratricidas, sozinhos puseram-se a badalar alegremente e continuaram a badalar durante toda á noite e durante todo o dia seguinte.

Mais ainda, e o acrescento, mesmo não sendo de sinos, por tratar-se de telecinesia que acompanhou a dos sinos: As portas de todas as igrejas católicas, que estiveram fechadas pelos albigenses durante quarenta anos com toda classe de trancas, cadeados e inclusive ferros argamassados nos muros, abriram-se sozinhas, sem pedreiros, sem martelos, sem chaves.

Consta indiscutivelmente a realidade de ambos fatos. Milhares e milhares de testemunhos. Houve tempo abundantíssimo para a mais perfeita verificação. Em 1293, para o processo canônico, a declaração do fato foi assinada por grandíssimo número de testemunhas. A verdade foi verificada por outro processo histórico em 1537 para a bula do papa Paulo III. E de novo ata de tabelião assinada a 29 de janeiro de 1676, para o processo dos Mártires de Avignon.

Paulo III, papa de 1534 a 1549. Estátua por Guglielmo della Porta, conservada no Vatican

QUAL FOI A CAUSA?

Para tal telergia ser humana seria demais... á telergia humana Certamente não é suficiente nem muitíssimo menos para os casos dos sinos com São Aldebrando, com São Isidro, com os Mártires de Avignon, etc., etc. Certamente estes fatos, como também não os fatos de pirovásia aludidos no artigo anterior, e milhares e milhares de outros fatos de outras classificações de fenômenos, não ocorrem em todas as épocas, em todos os povos, em qualquer ambiente, em todas as religiões...

São milagres? Essa é a pergunta central de toda esta muito longa série de artigos sobre um problema sensacional.

Em primeiro lugar o que fenômeno SN, supra-normal, milagre?


TERGIVERSAÇÃO MAL-INTENCIONADA. Antes de entrar na apaixonada e apaixonante polêmica tri-secular, permita-me o leitor abaixar... É lamentável ter que iniciar a análise de tão sublime tema abaixando o nível do debate, para citar Allan Kardec e os “mestres” do Espiritismo. Mas estamos no Brasil, o país mais espiritista do mundo. Em qualquer cidade um pouco grande do Brasil há mais espiritas do que em todo o resto do mundo junto, uns por ingenuidade e enganados por muitos outros fanáticos e inclusive mal intencionados... Serei breve.

Por sua animadversão contra o Catolicismo e por sua superficialidade cultural (Não passou de professor de escola primária, e nem Psicologia existia então, muita menos Parapsicologia), Kardec, diremos metafraseando, “Ouviu sinos sem saber donde”.

1º) Em “A Gênese. Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo” escreve Allan Kardec tergiversando tudo: “O espiritismo não faz milagres (Certamente)... Esses fenômenos é certo (É plenamente falso), se prendem à existência dos espíritos e à sua intervenção no mundo material. Ora, dizem que isso é sobrenatural (Seria, se fosse verdade); mas então teria sido necessário provar que os espíritos e suas manifestações são contrários (Ser claramente superiores não é serem contrários) às leis da natureza”.
– Não entende, ou deturpa para enganar, até os mais elementares conceitos daquilo de que está falando.

2º) E Allan Kardec acrescenta pouco depois: “A intervenção de inteligências ocultas nos fenômenos espíritas (Primeiro haveria que demonstrar que são fenômenos espíritas, contra toda a Parapsicologia verdadeira –porque os espíritas no Brasil têm o topete de afirmar que são parapsicólogos!–) não os torna mais miraculosos que todos os demais fenômenos devidos a agentes invisíveis, pois esses seres ocultos que povoam os espaços são uma das potências da natureza (Se são inteligências de agentes invisíveis, de seres ocultos dos espaços fora do nosso mundo, como é que podem ser naturais? Plena contradição), potências (Onde se incluiriam Deus, deuses, anjos, demônios, fadas, etc., etc.) cuja ação é incessante (Provas?. Contra toda a Parapsicologia e demais ciências de hoje) sobre o mundo material, como sobre o mundo moral. O espiritismo, esclarecendo-nos (!?) acerca desse poder, nos dá a chave de uma multidão de coisas inexplicadas, e inexplicáveis por quaisquer outros meios, e que em tempos remotos puderam passar por prodígios”, por milagres.

– Quase tantos erros como palavras. Mas reduçamo-nos ao central: “A intervenção de inteligências ocultas nos fenômenos... não os torna mais miraculosos que todos os demais fenômenos devidos a agentes invisíveis”. Na pretensão de ser racionalista cai na irracionalidade de discussão meramente de nome: ao que todos chamam sobrenatural, ele quer chamar natural. A ação de seres não do nosso mundo, ele quer considerá-la tão de nosso mundo como a ação das ondas de TV e de rádio, por exemplo! Coitados espíritas, que seguem como “máximo mestre” quem..., não pode ser tão obtuso, portanto tem que ser mal intencionado.

Bom, mais uma vez peço desculpas pelo haver analisado Kardec e os “mestres” espíritas, que não têm nem a mínima categoria, mas estamos no Brasil..., e já nos próximos artigos entraremos na apaixonante polêmica secular. Qual é a “outra causa”, a “causa oculta” de milhares e milhares de fenômenos de todas as classificações, os O mais maravilhosos, os mais admiráveis, muitíssimo superiores aos de todas as épocas, de todos os povos, de todas as religiões... São SN, milagres? O que é milagre?