PANTOMNÉSIA OU HIPEREMNÉSIA? - Se somos pantomnésicos (do grego "mnésis = memória, e "pantõm" = de todas as coisas) lembramos tudo, absolutamente tudo. Se somos hiperemnésicos (do grego "hiper" = sobre, extraordinário; e mnésis = memória) então nossa memória inconsciente seria, sim, admirável, superaria tudo o que geralmente se pensa, mas não seria precisamente memória de tudo.
O dilema é antigo. Foi Richet que propôs o termo "pantomnésia": "Para indicar -escreve- que a memória não esquece nada e que tudo o que impressiona nossos sentidos (acrescentamos nós: ou todo ato da nossa inteligência, vontade, imaginação...) permanece fixado no cérebro inconsciente, eu proporia a palavra 'pantomnésia'. Pela sua etimologia, significa que nenhum vestígio do nosso passado cognoscitivo se apaga".
Não é possível provar experimentalmente que não se esquece absolutamente nada. Mas a pantomnésia parece lógica. Em todo caso, embora houvéssemos de conceder que talvez possa se apagar alguma coisa da nossa memória inconsciente, o fato indiscutível é que o inconsciente arquiva muito mais do que ordinariamente se poderia suspeitar. E na Parapsicologia, se algum fenômeno pode explicar-se por memória inconsciente, é evidente que não devemos recorrer a outras explicações mais "misteriosas" como os fenômenos paranormais, e muito menos a explicações ultra-terrenas ou ao absurdo da reencarnação, como já Richet formulou: "Provavelmente, todos somos pantomnésicos. Em todo caso, na apreciação dos fenômenos metapsíquicos, devemos admitir que não esquecemos absolutamente nada".
A PANTOMNÉSIA NA VIDA QUOTIDIANA - A memória é como um desses enormes blocos de gelo que os ingleses chamam "iceberg". Só uma pequena parte aparece sobre a superfície do mar, a memória consciente, a memória atual se é que podemos empregar essa expressão. Mas, da superfície pode-se ver também uma pequena parte do "iceberg", contanto que queiramos olhar para baixo: é a memória pré-consciente. São todas essas lembranças que temos arquivadas e às quais agora, por exemplo quando estamos lendo estas linhas, não prestamos atenção. Mas basta que queiramos e nos lembraremos como é o nosso nome e o dos nossos parentes, e onde moramos, em que ocasião fizemos uma viagem de avião pela última vez etc. Basta olharmos para baixo, sob a superfície do mar, ao pré-consciente. Há outra zona do "iceberg" que não vemos nem mesmo se olharmos para ela. Mas se o "iceberg" se inclinar ou revirar, essas lembranças irão emergir. Isto acontece porque as circunstâncias (associação de idéias inconscientes) procuraram ou reclamaram tal lembrança.
Às vezes é bem longo o tempo empregado pelo arquivador, até encontrar a lembrança que procura:
Brockelbank, por exemplo, perdera um canivete de estimação. Procurava-o em vão. Conscientemente decidiu não pensar mais no assunto. Mas o inconsciente ficou alerta. Certa noite, seis meses mais tarde, o inconsciente conseguiu encontrar a lembrança arquivada. Brockelbank sonhou então que usava umas calças velhas, há muito tempo abandonadas, e que lá se encontrava o canivete. Por que sonhou isto? Intrigado, quis ver se era verdade e foi em busca das calças. No bolso com o qual sonhara estava o canivete.
Muitas das chamadas "intuições" ou "inspirações" do momento são, no todo ou em parte, lembranças do que ouvimos, lemos, pensamos em ocasiões anteriores. Mas passam quase sempre despercebidas no seu aspecto de lembranças.
Podemos fomentar a associação de imagens e excitar o inconsciente, fazendo, assim, trabalhar o arquivador.
Conta-se na biografia do sábio espanhol Amor Ruibal que sua prodigiosa memória consciente (pré-consciente) permitia-lhe encontrar sem fichário o que precisava na sua confusa biblioteca pessoal. Um dia, porém, a memória consciente falhou e apesar de empregar várias horas não encontrou um folheto raro sobre o Código de Hammurabi.
Encarregou alguns auxiliares de vasculharem dependência por dependência, livro por livro, pasta por pasta, para encontrar o folheto. Inútil. Aquela noite deitou-se profundamente contrariado e preocupado, pois precisava com urgência do folheto, e em sonhos viu o folheto em determinado lugar inesperado. Acordou. Rapidamente foi ao lugar para constatar se era verdade... Lá estava o folheto extraviado.
O inconsciente, aguçado pelo desespero da situação "trabalhou no seu arquivo" toda a noite, até encontrar a lembrança desejada.
Maury, esforçava-se por lembrar determinada coisa interessante antes de deitar-se à noite. E assim muitas noites ia "provocando" o arquivador. Em sonhos, com alguma freqüência, vinham lembranças e mais lembranças.
Método quase idêntico, embora admita melhor técnica, é o da hipnose. Pela hipnose, em alguns casos, podemos obter excelente ajuda para a vida prática, sob a direção de algum médico ou psicólogo técnico em hipnotismo, com o que reduziremos ao mínimo o perigo de fomentar o automatismo e outras decorrências perigosas.
Um conhecido especialista em hipnose refere-nos o seguinte caso:
A Srta. W procurava encontrar uma comercial muito importante, que perdera um ano antes da nossa entrevista... Em estado hipnótico, e em resposta a perguntas específicas, disse, primeiro, quando recebera a carta; depois, em que oportunidade a utilizara; e por último, quando a vira pela última vez. Foi no quarto para hóspedes, de sua tia, em Boston, enquanto preparava a mala para viajar.
- "Não a colocou na mala?"
- "Não".
- "Desde então não a viu mais?"
- "Não".
Acordando-a, informei-a de que deixara a carta no quarto para hóspedes em Boston. (Em vigília ela afirmara que a última vez que tinha visto a carta fora num escritório de New York). Ela não acreditava ser isso possível, mas disse que o comprovaria escrevendo para sua tia. Algumas semanas mais tarde, fui informando de que a investigação confirmara a revelação feita durante a hipnose. A carta fora encontrada em Boston. Felizmente, sua tia a tinha guardado.
Por meio da hipnose ou associações, testes, drogas, etc., o psiquiatra poderá obter algumas vezes do inconsciente lembranças que o auxiliem na recuperação do paciente. Com a colaboração do médico ou psicólogo hipnotizador o advogado poderá obter dados preciosos para a reconstituição dos fatos do seu cliente, etc.
Uma experiência quase de rotina é a comprovação da memória do inconsciente durante a hipnose. Pela hipnose chegou-se por vezes a bastante profundidade do arquivo. "Em conseqüência, a imaginação exalta-se também, dando à linguagem dos pacientes um brilho e um colorido notável: a memória reproduz com notável precisão cenas e pormenores que, em estado de vigília, estão completamente esquecidos, ou jamais fixados".
O cérebro humano é o mais perfeito e completo.
A CRIPTOMNÉSIA - Para chegar às capas mais profundas do "iceberg" não há técnicas suaves. Tratar-se-ia de causar uma tempestade, um profundo desarranjo no psiquismo. Diríamos dar a volta ao psiquismo, ou fazer explodir o "iceberg", excindir a personalidade de forma que, consciente e inconsciente "se apresentem em público" conjunta ou sucessivamente: dupla personalidade, tríplice, etc.
Às vezes, estes profundos desarranjos, surgem como resultado de graves traumas físicos ou psíquicos, assim como doença, acidente, golpes na cabeça, desgraças, medos...
Especialmente estas manifestações do inconsciente mais profundo sempre se apresentaram nimbadas de mistério, porque só recentemente se descobriu a origem na memória do inconsciente. É por isso que a memória do inconsciente foi chamada também "criptomnésia", que etimologicamente significa "memória oculta". Explicando o conceito diríamos que é a memória sem aparecer como tal, sem se saber que se trata de lembranças.
Uma grande parte do próximo artigo poderia ser aduzido aqui, como exemplo de "lembrança ocultas", resultado de profundo desequilíbrio psicofísico.
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